Doria vence prévias do PSDB para disputar Presidência em 2022

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    Clique e leia a Edição 190/21 do Jornal Folha 12 - 10 de Dezembro de 2021

O resultado põe fim a uma novela que começou no domingo (21), quando a votação foi impedida por uma pane no aplicativo

CAROLINA LINHARES, DANIELLE BRANT E FÁBIO PUPO
SÃO PAULO, SP, E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – O governador de São Paulo, João Doria, 63,venceu, neste sábado (27), as prévias presidenciais do PSDB por 53,99% a 44,66% contra o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. O terceiro concorrente, Arthur Virgílio Neto, ex-prefeito de Manaus, obteve 1,35%.

 

O resultado põe fim a uma novela que começou no domingo (21), quando a votação foi impedida por uma pane no aplicativo (investiga-se um ataque hacker) e o resultado, postergado. O saldo foi de vexame e tensão no partido.

Neste sábado, cerca de 40 mil filiados puderam votar por meio de uma nova ferramenta online. No total, 44,7 mil se cadastraram para votar nas prévias -cerca de 3.000 votaram pelo app e o restante, tucanos com mandato, em urnas eletrônicas, no último domingo.

O presidente do PSDB, Bruno Araújo, disse ter havido tentativas de ataque ao sistema de votação nas prévias neste sábado, mas que houve boa resistência do novo aplicativo contratado. Foram contabilizadas pouco mais de 30 milhões de tentativas de acesso ao sistema, de acordo com as empresas de auditoria do processo.

Vitorioso nas prévias, Doria fez um discurso em que pregou a união de seu partido e de outras siglas em torno de um projeto liberal para enfrentar Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (sem partido, rumo ao PL).

O governador paulista acenou a seus rivais, particularmente Leite, com quem travou uma amarga disputa ao longo das prévias. “A eleição foi linda. Não tenho dúvidas de que foi difícil a decisão. Eduardo Leite e Arthur Virgílio são meus amigos e do mesmo partido. A partir de agora, fazemos parte da mesma chapa”, disse o tucano.

“Ninguém faz nada sozinho. Precisaremos da ajuda de todos. Da união do Brasil. Da união do PSDB. Da união com outros líderes e partidos.”
Eduardo Leite desejou boa sorte a Doria defendeu o partido como um projeto de centro contra a polarização e os extremos no cenário político.

Ele criticou o que chamou de “polarização inútil e prejudicial à vida da população”. “João, te desejo toda sorte porque o Brasil precisa disso. Que a gente consiga viabilizar um projeto no centro.”

Para o governador do RS, o país vive um clima de ataques entre dois extremos ao mesmo tempo em que cresce abaixo do potencial e ainda convive com desigualdades.

O partido tem a missão de ser firmar como a principal opção da chamada terceira via, enquanto vê esse posto ameaçado por candidatos como o ex-juiz Sergio Moro (Podemos).

“Essa energia desperdiçada entre dois extremos que se enfrentam como dois inimigos a serem exterminados e que viram os verdadeiros inimigos da população, soltos para fazer o estrago que estão fazendo”, afirmou Leite.

A semana havia agravado a divisão entre Doria e Leite, enquanto evidenciou o alinhamento de Virgílio ao governador de São Paulo.
O paulista levantou suspeitas de que as regras de votação foram feitas para beneficiar o gaúcho, além de lembrar a relação do rival com o deputado Aécio Neves (MG), falando na necessidade de depurar o partido.

Doria foi alvo ainda de acusação de compra de votos pela deputada Mara Rocha (AC), episódio que não teve desdobramentos -a não ser pelas referências de Leite. Contudo, o governador paulista foi colocando panos quentes nas polêmicas e preparando o terreno para a votação deste sábado.

“Entendemos que a dimensão do nosso partido, a dimensão daquilo que representa o único partido do Brasil que faz prévias, é mais importante do que qualquer outro sentimento que possa ter sido expressado de forma emocional, de forma instável ou de forma deliberada”, resumiu, na terça (23).

O fiasco da votação do último domingo já era previsto na equipe de Doria, que considerava o app original frágil. A ferramenta já havia sido alvo de contestação pelas campanhas de Doria e de Leite devido a vulnerabilidades, mas mesmo assim foi mantida.

Tucanos que acompanharam as prévias afirmam que, apesar de favorito por estar à frente de São Paulo, sede do tucanato, Doria viu seu adversário crescer, mas recuperou terreno na reta final -virou o voto, por exemplo, de dois deputados federais.
Por isso, para Leite e seus aliados, o adiamento beneficiou o paulista. O entorno do gaúcho afirma que Doria conquistou novos votos com base em barganha e intimidação, sobretudo em São Paulo, o que a campanha paulista nega.

Doria, que costuma dizer ser “filho de prévias”, vence a sua terceira em seguida. Ele foi vitorioso nas indicações para concorrer à Prefeitura de São Paulo, em 2016, e ao governo do estado, em 2018 -tendo conquistado os dois cargos.

Ao bater o rival gaúcho e obter a vaga de candidato à Presidência, Doria consolida seu projeto político iniciado em 2016 e abre caminho para ampliar sua influência na sigla -apesar da resistência de tucanos da ala histórica e de seu principal rival interno, Aécio.

Depois de um processo com críticas e acusações de parte a parte, Doria terá o desafio de unir a sigla em torno da sua campanha ao Planalto.
Doria já afirmou acreditar que as prévias fortalecem o PSDB e que, superada a votação, todos os membros do partido serão aliados e vencedores.

A composição do percentual de cada um dos três candidatos se baseou nos votos de quatro grupos, cada um com peso de 25%. O paulista ganhou em três deles, e no último bloco houve divisão.

Entre filiados, Doria teve maior vantagem, somando 15,4% dos votos frente à 9,2% de Leite. Já entre os prefeitos e vices, a distância foi pequena: Doria ficou com 12,9% e Leite 11,9%.

No grupo de governadores e vices, senadores e deputados federais, bem como ex-presidentes do PSDB, o paulista também obteve vitória apertada: 13% dos votos, enquanto o gaúcho somou 11,5%.

Deputados estaduais e vereadores representavam juntos 25%. No primeiro grupo ganhou Doria (6,8%), enquanto Leite teve (5,5%). Apenas entre os vereadores o gaúcho ficou na dianteira, somando 6,5% frente a 5,9% do paulista.

Nos dias que antecederam a primeira votação, Leite e Doria já procuravam baixar a temperatura publicamente: fizeram um último debate morno e ensaiaram um discurso de unidade durante uma reunião em Porto Alegre. Nos bastidores, a briga voto a voto seguiu até o final.

O gaúcho, que foi procurado por outras siglas neste ano, disse que não deixaria o partido se perdesse. Leite vinha afirmando ainda que, no caso da derrota, não concorreria a nenhum cargo em 2022 e terminaria seu mandato no Rio Grande do Sul.

Outra tarefa do agora presidenciável é estabelecer conversas e negociações com partidos da chamada terceira via, com o objetivo de evitar a fragmentação do campo político que pretende apresentar uma alternativa viável contra Jair Bolsonaro e Lula, que estão à frente nas pesquisas.

Durante a campanha, Doria se comprometeu a buscar as demais legendas e até sinalizou que poderia abrir mão da cabeça de chapa em nome de um projeto comum. Com cerca de 5% nas pesquisas e criticado por não alavancar seu nome a partir do trunfo da vacinação, o tucano está atrás de Sergio Moro (Podemos).

A maior rejeição de Doria nas pesquisas e a opinião de que sua candidatura é um projeto pessoal que isolaria o PSDB foram argumentos mobilizados por Leite, mas não bateram a ampla vitrine de programas e investimentos apresentada pelo governador paulista a seu favor.

O gaúcho procurou angariar votos em São Paulo com a ajuda do ex-governador Geraldo Alckmin, que só consideraria permanecer no PSDB caso Leite vencesse.

Na visão de parte dos tucanos, o estilo mais incisivo e pragmático de Doria poderia impor uma dificuldade a mais para a união da legenda.
Com Doria presidenciável, não haveria espaço para deputados bolsonaristas -em geral, ligados a Aécio e apoiadores de Leite- na bancada federal e uma debandada seria provável. O deputado mineiro, porém, nega planos de deixar a sigla.

Já para aliados de Doria, uma vitória de Leite, que fortaleceria a ala de Aécio no partido, acabaria por transformar o PSDB em um partido do centrão.

Doria, que em 2018 fez campanha por Bolsonaro sob o slogan “BolsoDoria”, passou a ser um dos principais opositores do presidente.
Com uma campanha que teve como alvos também Bolsonaro e Lula, Doria percorreu 21 estados do país e obteve o apoio formal de cinco diretórios, incluindo o de maio peso, São Paulo, que sozinho representou 35% dos votantes.

Erros de Leite na reta final contribuíram com o resultado -o vaivém de declarações após a suspensão das prévias, o pedido feito por um aliado para adiar a votação devido a desconfianças no aplicativo e a revelação pela Folha de que o gaúcho atuou, a pedido do governo Bolsonaro, para adiar a vacinação.

A ironia é que a campanha de Leite teve início após um movimento político equivocado de Doria, que tentou tomar para si a presidência do PSDB em fevereiro e, como troco, viu surgir um rival apoiado pela bancada.

Durante a campanha, o governador paulista teve estrutura mais robusta e investiu em pesquisas, sustentado pela máquina do PSDB paulista, experiente em prévias, e até pela máquina do governo, com um orçamento previsto de R$ 50 bilhões para investimentos nas cidades.

A Folha revelou que, em 2021, Doria multiplicou o repasse de verba política, chegando a R$ 1 bilhão.
O marketing da campanha de Doria, coordenado pelo publicitário Daniel Braga, incorporou a rejeição a ele -o governador assumiu-se “chato” e “calça apertada” ao som de “O Homem Disparou”, hit da eleição de 2020.
Houve uma gafe no interior da Paraíba, quando Doria provocou risos da plateia tucana ao perguntar: “quem aqui já foi a Dubai?”.
Após dois coordenadores das prévias -o senador José Aníbal (SP) e o ex-deputado Marcus Pestana (MG)- declararem apoio a Leite, a campanha de Doria afirmou que “a parcialidade antes velada se tornou explícita”.

“As raposas estavam dentro do galinheiro. É debochar na cara dos filiados do PSDB”, disse Wilson Pedroso, coordenador da campanha de Doria.

Os aliados de Leite também reclamam do rival, apontando que Doria agiu com pressão. O maior exemplo foi a demissão de um secretário da capital após ter declarado voto no gaúcho.

Eles acusaram ainda a tentativa de fraude por parte dos paulistas pela filiação extemporânea de 92 prefeitos e vices que, ao final, foram excluídos da votação.

Em eventos de campanha, Leite criticou Doria duramente, afirmando que “o sentimento do PSDB raiz é maior do que qualquer tipo de pressão” e condenou o voto em troca de vantagens indevidas.

Para estrategistas de Leite, táticas de intimidação podem ter feito a diferença no resultado, mas terão o efeito colateral de agravar a imagem de Doria no partido.

Agora convocado a fazer campanha para Doria e esquecer todos os ataques, Leite chegou a fazer um trocadilho, na sexta (19): “Não adianta depois chorarmos o leite derramado, porque vamos todos nos ver numa calça justa”.

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