Por Nathalia Costa

Quem entra em uma das salas do Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), no centro da capital paulista, se depara com uma brinquedoteca com adesivos coloridos nas paredes e ursinhos de pelúcia. Na parede oposta, uma placa metálica indica que ali funciona a 4ª Delegacia de Repressão à Pedofilia.

É neste local que a equipe de investigadores trabalha na caça de criminosos que têm como alvo crianças e adolescentes.

O trabalho de investigação é feito quase todo na internet – onde infratores usam o aparente anonimato da rede virtual para consumir conteúdo pornográfico infantil e aliciar menores de idade.

“A nossa delegacia é praticamente virtual. Nós buscamos por crimes digitais, como troca de fotos, vídeos e produtores de vídeos”, detalha a investigadora Ana Paula Ferraz Gandolfi, de 41 anos. 

Além de combater a produção e o consumo de pornografia infantil, os policiais também precisam lidar com outra modalidade criminosa: o “estupro virtual”.

“Essa modalidade é mais recente, e acontece quando um aliciador se passa por uma criança ou um adolescente para ter contato com as vítimas por meio das redes sociais. Após criar um vínculo afetivo, ele induz a vítima a produzir fotos e vídeos, geralmente com nudez, e passa a ameaçá-la caso ela não faça algo que ele manda, como enviar as imagens, por exemplo”, explica.

Há também casos em que a vítima envia o material e passa a ser chantageada para não ter o conteúdo publicado. Muitas vítimas passam meses sob pressão, o que acaba afetando o comportamento e pode acender um alerta para os pais de que algo está errado.

“A criança, depois de uns 3 meses passando por essa situação, está tão esgotada, que não aguenta mais. Com isso, os pais começam a notar a mudança de comportamento e aí, na primeira oportunidade, vão olhar os celulares dos filhos para tentar entender o que está acontecendo. É nesta hora que os pais descobrem que os filhos estão sofrendo abuso”, afirma o investigador Alexandre Scaramella, de 51 anos.

“Caçadores” de abusadores na Deep Web

Além de monitorar redes sociais em busca de material pornográfico infantil, a Polícia Civil de São Paulo conta com outra ferramenta para a investigação: a infiltração nos grupos de criminosos que vendem e compartilham cenas de abuso na chamada Deep Web. 

A infiltração é autorizada por meio da lei nº 14.332, que também estabelece um prazo limite para que os policiais coletem provas para o indiciamento de uma ou mais pessoas. Com as infiltrações, os policiais conseguem identificar o modo de agir desses criminosos, a linguagem que usam, símbolos e até tatuagens.

“Eles têm essa necessidade de se identificar. Como vivem à margem da sociedade, têm essa necessidade de se encontrar, não só na internet, mas também no mundo real”, detalha o investigador Jorge André Domingues Barreto, de 39 anos.

Barreto é mestrando em Ciências da Computação pela USP e atua na Unidade de Inteligência do Departamento de Polícia do Interior 5 (Deinter 5), em São José do Rio Preto, no interior paulista.

O investigador se especializou em infiltrações a partir de 2016, quando fez o curso patrocinado pela Homeland Security Investigations (HSI), com apoio da Embaixada dos Estados Unidos, na Academia da Polícia Civil “Dr Coriolano Nogueira Cobra”, na capital paulista.

forma de agradecer pelo trabalho do policial.

“Quando teve a prisão, ela disse: ‘Estou ligando para agradecer, porque achava que eu era o problema nessa sociedade, não essas pessoas”, lembra Jorge André.

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