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Com informações da ONU

A ONU News conversou com o médico infectologista brasileiro Marcus Lacerda. Desde março deste ano, ele é o diretor do Programa Especial para Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais, TDR, da Organização Mundial da Saúde (OMS), em Genebra, na Suíça.

O diretor falou sobre as principais prioridades do programa e, ao olhar para os países de língua portuguesa, apontou os desafios e as conquistas que devem ser celebrados. Além disso, comentou sobre o papel que a inovação, incluindo a inteligência artificial, desempenhará no enfrentamento das doenças tropicais nos próximos anos.

Os primeiros meses na OMS

Na entrevista à ONU News, Lacerda abordou os maiores desafios para transformar evidências científicas em políticas públicas efetivas no controle dessas enfermidades.

Ele contou que os cinco primeiros meses à frente da área responsável por doenças tropicais na OMS foram extremamente intensos.

“Minha primeira Assembleia Mundial da Saúde, entendendo um pouquinho de como é essa dinâmica multilateral, que é uma iniciativa que tem sido atacada, mas que a gente tem aprendido muito como lidar com ela, como ouvir as pessoas, como fazer discussões que certamente são mais difíceis, mas que são as únicas discussões que têm uma vida mais longa”.

Esse processo, quando se trata de doenças tropicais, é fundamental, de acordo com o especialista, porque esse grupo de enfermidades está espalhado por vários países, com diferentes economias e atores atuando neles.

O que faz o programa

O diretor explicou que o programa para doenças tropicais foi criado há 52 anos com a ideia de treinar pesquisadores que estejam em áreas endêmicas, em países de baixa e média renda. Esse espírito e essa missão permanecem. Além disso, o TDR ajuda no desenvolvimento de novas ferramentas e na implementação delas nos territórios onde são necessárias.

Segundo ele, “não adianta registrar ou desenvolver uma droga ou vacina se ela não chegar até as pessoas que mais precisam”.

Assim, o TDR tem hoje a missão de viabilizar a implementação dessas ferramentas nessas áreas.

Países de língua portuguesa: desafios e conquistas

Olhando para os países de língua oficial portuguesa, Lacerda destaca o Brasil, que teve um crescimento expressivo não só no desenvolvimento, mas na produção de ferramentas de combate às doenças tropicais, contando com grandes instituições como a Fiocruz e o Instituto Butantan.

Por outro lado, existem vários países na África que, segundo ele, não têm uma conexão muito clara na área da saúde, apesar de existir a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, Cplp. 

Segundo o especialista, esses países, ao se tornarem independentes na década de 1970, iniciaram uma construção interna, inclusive na área de ciência e tecnologia, que ainda é relativamente recente.

Ele ressalta que a língua que une essas nações deve ser explorada para promover a troca de experiências entre países como Brasil, Portugal, Moçambique e Angola.

“Esses vários países devem usar a língua como uma ferramenta de intercâmbio de experiências, porque na África a gente tem, claramente, países que falam francês ou que falam inglês e eles têm uma conexão maior do que aqueles que falam português. Então, esse é um desafio, e o TDR tem colocado os seus treinamentos e as suas estratégias muito direcionadas para a língua. E certamente agora, com a minha presença no TDR, os países de língua portuguesa viraram uma prioridade definitiva”.

OMS
Progressos notáveis ​​foram feitos contra as doenças tropicais negligenciadas (DTN) nos últimos 10 anos

Ao abordar os desafios de transformar evidências científicas em políticas públicas eficazes no combate às doenças tropicais, Lacerda destacou que uma excessiva burocracia se consolidou ao longo do tempo.

Segundo ele, entraves em agências regulatórias, processos de aprovação ética e avaliações de economia em saúde acabam limitando o alcance dessas ferramentas, sobretudo em regiões de difícil acesso.

“Então, essa implementação precisa ser de forma cuidadosa e levar em consideração também a cultura de cada região. Ou seja, implementar uma ferramenta não significa apenas trazer aquela ferramenta para o país, eu preciso entender qual é a localidade, qual é o tipo de pessoa que eu estou atingindo, e se aquela medicação é para criança, é para uma gestante, é para uma população rural, é para uma população indígena”.

Este assunto faz com que a abordagem seja diferente em cada país. Ainda de acordo com o diretor, os sistemas e os ministérios da saúde ainda têm muita dificuldade em transformar isso em realidade. E este é, portanto, o papel do TDR.

IA e as doenças tropicais

O diretor destacou o papel que a inovação — em especial a inteligência artificial — desempenhará no enfrentamento das doenças tropicais nos próximos anos.

Segundo ele, os cientistas desses países enfrentavam uma barreira inicial significativa: a comunicação em inglês e a redação de artigos e propostas de financiamento científico. A IA reduziu consideravelmente essa distância.

Além desse avanço, modelos preditivos sobre mudanças climáticas serão fundamentais para que essas nações possam antecipar o surgimento de doenças, identificando antecipadamente se ocorrerão na forma de surtos locais ou grandes epidemias.

Para o especialista, a consolidação dessas ferramentas trará muito mais agilidade aos sistemas de saúde locais.

*Valéria Maniero é correspondente da ONU News em Genebra.

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