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Início » Mundo » Atriz brasileira abraça missão de promover português nos palcos de Nova Iorque

Atriz brasileira abraça missão de promover português nos palcos de Nova Iorque

RedacaoBy Redacao1 de outubro de 2025Nenhum comentário13 Mins Read
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Andressa Furletti é atriz e diretora artística. Brasileira, de Minas Gerais, ela é uma das fundadoras do Grupo Dot BR ou Grupo.BR (Grupo Ponto BR) desde 2011, nos Estados Unidos.

Após estudar artes cênicas no Stella Adler Centro para Artes, em Nova Iorque, ela percebeu que faltava alguma coisa na vasta biblioteca da escola repleta de roteiros hispano-americanos da Argentina, do Chile, do México… O que não havia? Obras em português.

Movimento de diásporas

Em vez de se revoltar com o status quo, ela procurou fazer da crise uma oportunidade. A partir daí nasceu a ideia de produzir teatro brasileiro em inglês, e com uma boa parte em português, para o público americano e internacional.

Com a parceria dos colegas e co-fundadores Debora Balardini e Thiago Felix, nasceu mais do que uma arte, segundo a atriz.

Para ela, o Grupo.BR se tornou um movimento da diáspora, que conecta brasileiros e outros falantes do português que não se viam nos palcos americanos, mas também atrai americanos e outras nacionalidades curiosas pela “sonoridade e musicalidade” da língua portuguesa.

Nesta entrevista ao Podcast ONU News, Andressa Furleti fala da simplicidade e da complexidade de apresentar Clarice Lispector ao público internacional quando adaptou o espetáculo “Dentro do Coração Selvagem”, baseado no livro “Perto do Coração Selvagem”, de Clarice Lispector.

Teatro de imersão, público emocionado

“O que foi um desafio quando a gente fez essa primeira adaptação do “Dentro do coração selvagem”, a gente queria fazer exatamente uma peça que fosse de sensações. Então, a gente fez um teatro totalmente imersivo, dentro de uma casa, onde esses personagens do universo da Clarice, de todos os livros, de 13 contos estavam ali nesse espaço. E as pessoas entravam e podiam ir aonde quisessem, podiam tocar o que quisessem, então tinha coisa que podia comer, podia beber. Era um espetáculo experiencial mesmo. Ele era de sensações. Tinha lugares para as pessoas escreverem. Então era muito introspectivo. Às vezes, você estava num lugar, aí vinha uma peça, acontecia. E essa proximidade veio, exatamente, porque a Clarice tem essa coisa muito íntima. Ela fala de sentimentos muito profundos, que a gente não consegue explicar. E na hora que você lê, você fala: gente, eu sinto isso também!”

“Deus me livre de não ser brasileira, gente!”

A entrevista inédita com Andressa Furletti para o Podcast ONU News foi gravada nos estúdios da TV ONU, em maio, mês da língua portuguesa.

Ao ser perguntada sobre a importância e significado da língua materna, a atriz respondeu:

“Para mim, o português é poesia e música. É interessante porque cada língua também tem uma colocação. O inglês é mais aqui, ele é anasalado. E o português, para mim, ele é uma língua do coração. O som vem muito daqui, olha? Vem muito da caixa. Então, por exemplo, eu estou conversando com você agora, e eu ponho a mão no meu peito e eu sinto que a vibração está aqui.  Então, é uma língua poética, uma língua do coração, uma língua do amor mesmo. Então… Deus me livre de não ser brasileira, gente!”

A página do Grupo.BR indica que esta é “a companhia de teatro brasileiro mais antiga de Nova Iorque e que apoia artistas a criarem uma ponte de troca de conhecimentos que ultrapasse fronteiras enquanto mantém o português como uma língua de herança.”

E ao que parece, nas peças do grupo e no teatro imersivo, não somente Andressa Furletti, mas muitos espectadores também se reencontram ou descobrem a profundidade da língua materna e da própria identidade cultural.

Debora Balardini, Mario Forte e Andressa Furletti em cena na peça de teatro Dentro do Coração Selvagem

Debora Balardini, Mario Forte e Andressa Furletti em cena na peça de teatro Dentro do Coração Selvagem

 

Leia e assista à entrevista na íntegra:

ONU News: Como é fazer teatro brasileiro em Nova Iorque?

Andressa Furletti: Olha. É uma honra, uma luta, uma alegria porque quando eu cheguei aqui, em 2007, eu fui surpreendida pelo fato de que não havia representação nenhuma do Brasil nos palcos da cidade. Eu descobri isso ainda estudando interpretação, na Stella Adler. Ru queria encontrar textos brasileiros, em inglês, para apresentar na escola. E fui às principais livrarias, aqui, dedicadas a peças de teatro. E não seção da América Latina, não existia nenhuma peça. E eu pensei:  gente, mas como pode?  Tenho um teatro latino aqui muito forte. Chileno, argentino, de vários lugares, mexicano, mas especificamente Brasil, em português, não existia. Então, a gente falou assim: bom, adoraria que existisse, e que me chamassem para fazer. Mas já que não existe, eu estou aqui. Então, vamos fazer.

 

ON: Interessante, porque tem uma diáspora tão grande. Mais de 1 milhão de pessoas entre portugueses, brasileiros, cabo-verdianos. Então faltava esta expressão. De lá para cá, muita coisa mudou. Você sente hoje mais curiosidade para a língua portuguesa e para a arte brasileira, no caso o teatro?

AF: Olha, Monica. Eu não sei se é a minha experiência, mas quando eu cheguei, eu notei que a comunidade brasileira era muito espalhada. Era muito comum, você ver os brasileiros falando que não queria “nada com brasileiro”.  Era um pouco triste isso…Então, quando a gente fez esse primeiro espetáculo, que foi “A serpente”, de Nelson Rodrigues, a gente ficou muito se perguntando se o pessoal viria ou não viria, e a gente foi surpreendia por um público muito caloroso, que estava muito carente disso: de se ver. O nosso espetáculo foi todo em português e casa lotada. No final. “sold-out”.  Gente querendo entrar e não tinha mais espaço.

 

ON: Os ingressos todos vendidos….

AF: É. Colocando cadeira a mais e gente chorando, emocionada porque estava aqui há muito tempo e não tinha este contato, não tinha este “se ver no palco”, aqui em Nova Iorque. Então, a gente vem construindo, ao longo desses quase 14 anos, de Rádio & Cia, a gente vem construindo essa comunidade e é tão bonito de ver as pessoas se encontrando.  A companhia Ponto BR, a gente virou um ponto de encontro. E é muito legal ver as pessoas desenvolvendo outros trabalhos inspirados pelo trabalho da Cia ou porque se conheceram através da Cia. Gente que se casou porque se conheceu em evento da Cia. Se pensar, já tem filhinhos por aí. Então, é muito legal ver a comunidade se juntando, se formando, se apoiando porque a vida do imigrante é difícil, né? A gente se sente muito peixe fora d’água, não sabe muito o nosso espaço. E ter uma comunidade que entende a sua língua, entende a sua cultura, de onde você veio, as referências e tudo, dá um alento para gente.

 

ON: A gente vai falar de Clarice Lispector cujos personagens, você interpreta tão bem.  E a gente vai pedir para você ler, daqui a pouco, um deles. Você fez a Lóri, em que ano?

AF: 2016, 2018. A gente fez um espetáculo chamado “Dentro do Coração Selvagem”.

 

ON: Ela completou 100 anos de nascimento em 2020. Morreu em 1977, relativamente jovem. Ela pode ser complexa para alguns, mas ao mesmo tempo muito fácil de compreender por que ela tem aquela simplicidade da narrativa que parece que o leitor é que está falando. Existe essa relação. Eu vou ler um trecho que você coloca na sua página.  Como é transmitir Clarice para esse público diferente daquele que você conhece desde que nasceu como atriz?

“Ângela é doida. Mas tem uma lógica matemática na sua aparente doidice. E se diverte muito, a escandalosa. Aguça-se demais e depois não sabe o que fazer de si. Que se dane. Entre o “sim” e o “não” só há um caminho: escolher. Ângela escolheu “sim”. Ela é tão livre que um dia será presa. “Presa por quê?” “Por excesso de liberdade”. “Mas essa liberdade é inocente?” “É”. “Até mesmo ingênua”. “Então por que a prisão”? “Porque a liberdade ofende”. (Clarice Lispector, “A hora da Estrela”.)

AF: Ah, Clarice é tão gostoso de trabalhar no contexto dela porque ela tem uma profundidade, uma complexidade e ao mesmo tempo uma simplicidade. Ela mesmo fala que o desafio do autor é o escrever o mais simples possível. E tem gente que tem uma dificuldade, às vezes, porque a narrativa dela não é uma narrativa de uma historinha. Raramente, ela tem realmente uma historinha. Ela está mais preocupada com a sensação que aquilo provoca. O que foi um desafio quando a gente fez essa primeira adaptação do “Dentro do coração selvagem”, a gente queria fazer exatamente uma peça que fosse de sensações. Então, a gente fez um teatro totalmente imersivo, dentro de uma casa, onde esses personagens do universo da Clarice, de todos os livros, de 13 contos estavam ali nesse espaço. E as pessoas entravam e podiam ir aonde quisessem, podiam tocar o que quisessem, então tinha coisa que podia comer, podia beber. Era um espetáculo experiencial mesmo. Ele era de sensações. Tinha lugares para as pessoas escreverem. Então era muito introspectivo. Às vezes, você estava num lugar, aí vinha uma peça, acontecia. E essa proximidade veio, exatamente, porque a Clarice tem essa coisa muito íntima. Ela fala de sentimentos muito profundos, que a gente não consegue explicar. E na hora que você lê, você fala: gente, eu sinto isso também!  Então, parece um sopro no ouvido, assim. Então, a gente queria essa proximidade no público. E ela está “encarnada” na gente. Depois deste espetáculo, a gente achou que ia terminar, e a gente está fazendo um outro espetáculo, uma adaptação do “A paixão segundo G.H.”, que estreia no final do ano. O espetáculo se chama “A paixão segundo Janair”.

 

ON: E este espetáculo que vocês fizeram foi muito elogiado pela crítica. Agora, a gente vai pedir à atriz para interpretar um trecho do espetáculo que está no livro “A hora da estrela”. Aqui todo mundo trabalha… (risos). Esta é sua câmera.

AF: (Interpreta um trecho do livro)

 

ON: Que privilégio para a gente ter uma atriz interpretando. Como você vive este dia a dia nas duas realidades linguísticas? Atores, advogados, jornalista, cantores, eles precisam da língua materna. Você lê um texto deste e se emociona. Ele está na sua língua materna. Alguns atores, como Fernanda Torres, dizem que podem interpretar em outra língua, mas não é a mesma coisa. Você chegou a falar de preconceito com sotaques, de não receber oportunidades, como você enfrenta tudo isso?

AF: É difícil… Eu acho que o Brasil, por falar português, a gente fica meio à margem de toda a América Latina. Uma das coisas que eu passei, antes de começar a companhia, fazendo testes, o produtor de elenco olhava para minha e dizia: ‘Você não é brasileira? Mas você não tem sotaque espanhol?’. E eu dizia: não. Eu não falo espanhol. Eu falo português. Então, é um dos motivos que a gente sempre, por mais que às vezes o espetáculo, a gente tem que fazer majoritariamente em inglês, como foi o caso do “Dentro do Coração Selvagem” porque era difícil traduzir, projetar as coisas e tudo, mas a gente sempre quer trazer um pouquinho do português, para trazer a sonoridade da língua. Para que as pessoas saibam o que é, para que as pessoas consigam identificar, escutem a sonoridade porque é uma língua tão bonita, tão sonora. Quem não fala e ouve a gente falando quer saber que língua é essa. Tem uma sonoridade específica. E é difícil interpretar a Clarice em inglês é difícil porque é profundo e você tem que realmente ensaiar muito para se conectar com a Clarice numa língua que não é sua.

 

ON: E você mesmo que faz a tradução ou você tem uma equipe?

AF: Não. No caso da Clarice. Toda a obra dela está traduzida para o inglês já. Então, foi meio caminho andado. Inclusive, a tradução dos contos é muito boa. Tem traduções muito boas. Quando a gente fez o espetáculo em cima da vida e obra de Vinicius de Moraes foi mais difícil porque aí não tinha tradução de quase nada. E traduzir poesia é muito difícil.

 

ON: Foi um mutirão?

AF: Não. A gente teve uma tradutora que fez um trabalho lindo para a gente. E este espetáculo era quase todo também em português, e era num bar. Então, como as pessoas estavam sentadas, a gente projetava as traduções como se fossem poesias, nas paredes. A gente via as pessoas, no meio do espetáculo, tirar o celular assim e tirar foto da poesia.

 

ON: Quando você está cansada, sai o português (naturalmente)? Mesmo que você tenha passado o dia todo falando em inglês…

AF: Como eu trabalho dentro da comunidade, com os brasileiros. O meu dia a dia aqui é muito mais em português do que em inglês.  Às vezes, eu tenho que lembrar e realmente exercitar (o inglês) para não perder o vocabulário. Não ter um sotaque perfeito em inglês, mas a gente tenta fazer uma pronúncia melhor possível, então tem que está sempre dando uma exercitada, assim no inglês mais do que no português. O português está mais próximo.

 

ON: E tem técnicas, que você pode utilizar como atriz, para falar com menos sotaque, ou falar com o sotaque mais aproximado daquele personagem que você está interpretando?

AF: Tem. Tem.

 

ON: Me conta, dá umas dicas.

AF: É muito um trabalho de entender a sonoridade, entender a musicalidade do inglês e entender a diferença entre o português e o inglês. Tem palavra que o brasileiro sempre fala errado. Por exemplo: roupa de cama é Bed Sheets. Se você falar errado é outra coisa… (Risos).  Às vezes, a gente tem certas palavras, certos sons que o brasileiro tende a falar errado, principalmente quando você lê. O som escrito do português e do inglês é muito diferente. Então, é um trabalho mesmo de aula, e de repetição, e de fala de novo, exercício de língua, e coloca a rolha, e coloca a caneta, e grava e ouve…

 

ON: Persistência…E é muito mais fácil hoje, né? Com os recursos tecnológicos.

AF: Muito mais. Quando eu cheguei aqui, era CD que a gente tinha que colocar. Hoje, tem aplicativo que te ouve e fala o que você está falando errado, então…

 

ON: Para terminar, este é o mês da língua portuguesa. A gente está gravando em maio. Mas você vai estar na nossa próxima temporada. O que é a língua portuguesa para você que vive nesse grande universo. Não só a sua língua, mas a língua de tantos personagens que você interpreta?

AF: É poesia, né? O português é muito poético. Para mim, o português é poesia e música. É interessante porque cada língua também tem uma colocação. O inglês é mais aqui, ele é anasalado. E o português, para mim, ele é uma língua do coração. O som vem muito daqui, olha? Vem muito da caixa. Então, por exemplo, eu estou conversando com você agora, e eu ponho a mão no meu peito e eu sinto que a vibração está aqui.  Então, é uma língua poética, uma língua do coração, uma língua do amor mesmo. Então… Deus me livre de não ser brasileira, gente!

ON: Muito obrigada pela sua entrevista ao Podcast ONU News.

 

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Com informações da ONU

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