A trajetória de Rogéria começou com um sonho diferente: ser advogada. Mas foi ao ajudar amigos a aprender pela internet que descobriu sua verdadeira vocação. “Eu explicava as coisas com paciência, e alguém me perguntou por que eu não estudava para ser professora”, relembra.
Aplicada nos estudos, Rogéria passou a maior parte da vida no Lar das Moças Cegas, em Santos. “A dificuldade financeira da minha família era grande, e minha mãe, que trabalhava como faxineira, me colocou no Lar, quando ainda havia o internato. Saía de lá apenas para ir para a escola”, conta a docente, que ia para casa apenas nos finais de semana. “Minha mãe tomou essa decisão para o meu bem, e foi ótimo o tempo que fiquei no Moças Cegas. Aprendi muito lá”, completa.
A lembrança da antiga mestra, professora Iara, foi o impulso que faltava. “Ela foi minha grande inspiração. Tinha paciência, sinceridade e acreditava nos alunos”.
Já adulta, trabalhou como telefonista, e ingressou na faculdade aos 33 anos. Enfrentou obstáculos, mas encontrou apoio nos colegas e professores. Gravava aulas, fazia provas orais e usava o notebook para acompanhar o conteúdo. “Não foi fácil, mas nunca pensei em desistir”, afirma.
Até 2021, Rogéria atendeu alunos com deficiência intelectual e Transtorno do Espectro Autista (TEA). Mais recentemente passou a contribuir com deficientes visuais, inclusive na alfabetização, como uma menina que aprendeu Braille aos 9 anos. “Ver o desenvolvimento dessa aluna foi uma das maiores alegrias da minha vida”, conta emocionada.
Atualmente na Unidade Educacional Mário Covas (Parque das Bandeiras), a professora reconhece que ainda há poucos profissionais especializados em deficiência visual e faz questão de compartilhar seus conhecimentos com colegas. “Quero ensinar Braille a outros professores. Há muitas crianças com potencial que não podem ficar esquecidas”, ressalta.
Com o apoio das tecnologias assistivas, sua rotina tornou-se mais acessível. Hoje, utiliza aplicativos que leem textos, descrevem imagens e identificam cédulas. “Antes só existia o Braille. Agora, a tecnologia nos permite enxergar de outras formas”, explica.
No Dia dos Professores, Rogéria deixa uma mensagem de persistência a todos os educadores. “É fácil desistir quando olhamos para as dificuldades, mas o foco precisa estar no aluno. A vida é feita de desafios, e enfrentá-los é o que nos torna realmente professores”.
Neste 15 de outubro, Rogéria tem motivos em dobro para celebrar: além de homenagear sua profissão, ela também comemora o Dia Mundial da Bengala Branca, data que simboliza a autonomia e a independência das pessoas com deficiência visual. Trata-se de um dia especial para lembrar que a bengala é mais do que um instrumento de locomoção — é um símbolo de liberdade, inclusão e coragem, como reflete a professora, que carrega em sua trajetória o exemplo vivo de que ensinar é, também, abrir caminhos para enxergar o mundo com outros olhos.
Por – Renato Pirauá
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Com informações da Prefeitura de São Vicente




