“A menina não vai voltar, mas nós estamos aqui falando dela, e ela será motivo de considerações por muitos e muitos anos”. A frase, dita pelo escritor José Louzeiro, que inspirou a produção do documentário “Caso Araceli – A Cobertura da Imprensa”, resume o motivo pelo qual a história de Araceli Crespo continua sendo contada mais de cinco décadas depois. Nesta terça-feira (26), mais de 90 estudantes de escolas e instituições de São Vicente assistiram ao filme no Cine Roxy Brisamar e participaram de uma atividade educativa promovida pela Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania (Sedhc), dentro da programação do Maio Laranja.
Mais do que revisitar um dos crimes mais emblemáticos da história brasileira, a iniciativa buscou provocar reflexão entre crianças e adolescentes sobre violência sexual, proteção e denúncia. Após a exibição, os participantes conversaram com conselheiros tutelares, educadores e profissionais da rede de proteção em uma dinâmica baseada em mitos e verdades sobre o tema.
Araceli tinha apenas 8 anos quando foi sequestrada, violentada e assassinada, em 1973, no Espírito Santo. O caso ganhou repercussão nacional e se tornou símbolo da luta pelos direitos de crianças e adolescentes. Não por acaso, o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes é lembrado em 18 de maio, data que marca a mobilização do Maio Laranja.
Desta vez, a proposta foi além da exibição do documentário. Os jovens também participaram ativamente da construção do diálogo. Questões como “todo abusador é um estranho?”, “denúncia anônima funciona?” e “a rede de proteção realmente ajuda?” foram apresentadas para que os próprios estudantes refletissem sobre situações que podem surgir no cotidiano.
A dinâmica foi conduzida pelo educador social Marcos Cola, do Instituto Alfa e Ômega. Segundo ele, o objetivo foi aproximar o tema da realidade dos adolescentes e ajudá-los a identificar situações que muitas vezes acabam sendo naturalizadas. “Às vezes, o jovem cresce ouvindo que determinadas situações são normais. Quando ele para para refletir, percebe que aquilo o deixa desconfortável e entende que tem o direito de procurar ajuda. A proposta deste Maio Laranja foi justamente colocar a criança e o adolescente nesse lugar de protagonismo, para que saibam que podem se proteger e denunciar”.
O impacto da atividade ficou evidente nas falas dos próprios participantes. Para Luana, de 15 anos, estudante da Escola Técnica Estadual Doutora Ruth Cardoso, a conscientização pode fazer diferença quando alguém próximo precisa de ajuda. “Eu achei muito importante trazer essa conscientização para as pessoas, porque às vezes a gente conhece alguém e não sabe como abordar isso. Quanto mais as pessoas souberem identificar e denunciar, melhor”.
Lucas, de 12 anos, aluno da Unidade Educacional República de Portugal, destacou que o documentário mostrou uma realidade que muitos conhecem apenas superficialmente. “É muito importante trazer as crianças para conhecer o Maio Laranja, porque esse tipo de violência é muito errado, mas acontece bastante. Muita gente saiu daqui com outra cabeça depois de assistir”.
Já Taylla, de 11 anos, do Instituto Alfa e Ômega, resumiu o principal aprendizado da tarde. “O importante é saber denunciar”.
Para Jackson Nunes, o impacto causado pelo documentário faz parte da proposta pedagógica da ação. “É um documentário impactante, mas ele fala da realidade. Infelizmente, no ano passado, o Brasil registrou mais de 87 mil casos de estupro de vulnerável. É uma realidade que a gente encontra na escuta especializada e nos Conselhos Tutelares. Queremos que eles compreendam isso para que saibam identificar situações de risco e denunciar”.
Canais de denúncia e proteção:
* Conselho Tutelar da Área Insular (plantão): WhatsApp (13) 99788-7230
* Conselho Tutelar da Área Continental (plantão): WhatsApp (13) 99788-6150
* Disque 100: canal nacional para denúncias de violações de direitos humanos
* Disque Direitos Humanos: WhatsApp (13) 99130-7046
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Com informações da Prefeitura de São Vicente



