Com informações da Agência São Paulo
Um ano após o fim da Cracolândia, na região central da capital paulista, a área registra queda nos roubos e já começa a colher os resultados da ampliação da rede de atendimento a dependentes químicos, que tem levado uma nova perspectiva de vida a ex-frequentadores da extinta cena aberta de uso de drogas. O avanço é resultado de um conjunto de ações integradas do Governo de São Paulo nas áreas de segurança, saúde e assistência social, em parceria com a prefeitura da capital, que levou ao esvaziamento definitivo da Cracolândia em maio do ano passado.
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O fluxo de venda e consumo de drogas, que chegou a concentrar cerca de 2 mil usuários na rua dos Protestantes e se deslocou ao longo de décadas por vias como Helvétia, Dino Bueno, Alameda Cleveland e Praça Princesa Isabel, foi desmontado após uma série de ações coordenadas. A desocupação total da rua dos Protestantes, em maio de 2025, simbolizou o fim da Cracolândia como problema estrutural no centro da cidade.
O vice-governador Felício Ramuth, coordenador de ações na região central, participou do SP POD, podcast da Agência SP, e falou sobre as ações que levaram ao esvaziamento das cenas abertas de uso em São Paulo:
Queda nos roubos
Os roubos nos 3º e 77º Distritos Policiais, que cobrem a região dos Campos Elíseos e Santa Cecília, caíram 70%, passando de 2.905 casos no primeiro trimestre de 2023 para 881 ocorrências no mesmo período de 2026. A região passou do maior número de roubos em 14 anos para o menor. Já o Hub de Cuidados em Crack e Outras Drogas realizou 39,3 mil atendimentos desde 2023 e encaminhou nove em cada dez pacientes para tratamento especializado, enquanto as Casas Terapêuticas acolheram 1.368 pessoas em unidades voltadas à reinserção social, emprego e retomada de vínculos.
“Durante décadas, muita gente disse que a Cracolândia era um problema sem solução. Mas com decisão política, integração entre as forças de segurança, saúde, assistência social e presença firme do Estado, é possível enfrentar esse desafio histórico”, afirmou o vice-governador Felício Ramuth, que coordenou as ações integradas do Estado na região.
Reforço na segurança
As ações de segurança envolveram reforço do policiamento ostensivo, ampliação do efetivo policial e uso de tecnologia. Desde 2023, a região central recebeu mais de 400 policiais militares em atividades permanentes de patrulhamento, elevando o efetivo local para mais de 2 mil agentes. O patrulhamento também passou a contar com 1,3 mil vagas por meio da Atividade Delegada. O programa Muralha Paulista, com câmeras inteligentes para identificação de procurados pela Justiça, também integrou a estratégia. As investigações resultaram nas operações Downtown e Salut Et Dignitas, conduzidas pela Polícia Civil para desarticular a logística do tráfico em hotéis, pensões e ferros-velhos.
Segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP), nove dos 11 meses posteriores ao fim das cenas abertas de uso de drogas registraram os menores índices equivalentes da série histórica para roubos na região: maio, junho, julho, agosto, setembro, novembro e dezembro de 2025, além de janeiro e março de 2026. Em todo o ano de 2022, quando a área ainda concentrava grande fluxo de dependentes químicos, foram registradas 9.204 ocorrências de roubo (o maior número desde o início da série histórica, em 2001). Em 2025, já durante o processo de desmonte do fluxo, o total caiu para 3.366, o menor já registrado.
A redução dos crimes ocorreu de forma gradual desde 2023. Os roubos passaram de 9.204 casos em 2022 para 8.019 em 2023, queda de 13%. Em 2024, o recuo foi de 44%, chegando a 4.492 ocorrências. No mesmo período, a ofensiva policial na região resultou em 3.182 pessoas presas e apreendidas e na retirada de 51 armas de fogo de circulação pelos dois distritos policiais.
“O que aconteceu no Centro foi uma estratégia de asfixia financeira contra o crime organizado. Atacamos a logística e o dinheiro ao mesmo tempo: fechamos os hotéis, pensões e ferros-velhos que sustentavam o tráfico, obtivemos o bloqueio judicial dos bens adquiridos com dinheiro de droga e prendemos os operadores do esquema”, afirma o secretário de Segurança Pública, Nico Gonçalves.
Apoio médico, psicológico e social para dependentes químicos
Na área da saúde, o Hub de Cuidados em Crack e Outras Drogas tornou-se uma das principais estruturas de atendimento aos dependentes químicos. Criado em 2023 pelo Governo de São Paulo, o equipamento realizou 39,3 mil atendimentos até março deste ano e registrou 34.689 encaminhamentos para tratamento especializado.
O Hub funciona como porta de entrada para urgência e emergência, oferecendo apoio médico, psicológico e social. Segundo balanço da Secretaria da Saúde, 61% dos pacientes encaminhados seguiram para hospitais especializados, 26% para comunidades terapêuticas e 10% para outros equipamentos de saúde. Em 2024, um ano antes do fim da Cracolândia, o equipamento registrou quase 15 mil atendimentos e 13,7 mil encaminhamentos.
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O Governo de São Paulo ampliou também a estrutura de acolhimento das Casas Terapêuticas. Desde 2023, foram implantados 14 complexos, com quatro unidades cada, totalizando 630 vagas entre municípios da Grande São Paulo e do interior. As unidades recebem pessoas com transtornos causados pelo uso de substâncias psicoativas e vivência em situação de rua, oferecendo acompanhamento multidisciplinar em um processo dividido em quatro fases: Acolher, Despertar, Transformar e Caminhar.
Desde janeiro de 2023, 1.368 pessoas foram acolhidas nas Casas Terapêuticas. O serviço atua articulado com os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), assistência social e rede de saúde, com acompanhamento também após a conclusão das etapas de acolhimento para prevenção de recaídas. As unidades estão em São Paulo, Guarulhos, Osasco e São José do Rio Preto, com previsão de expansão para São Vicente, Marília, Santo André e Ribeirão Preto. O investimento estadual já supera R$ 62,7 milhões.

Além do atendimento psicológico e terapêutico, os acolhidos recebem apoio para retomada dos estudos, inserção no mercado de trabalho, educação financeira e reconstrução de vínculos sociais. “A Casa Terapêutica aparece quando essas pessoas realmente se cansam e querem mudar de vida, querem uma alternativa ao que vivenciam todos os dias na rua”, afirmou Cláudia Conde, coordenadora de um dos complexos localizados na zona sul da capital.
Após passar por três internações para tratar a dependência química, um ex-frequentador da Cracolândia ouvido pela Agência SP encontrou nas Casas Terapêuticas a oportunidade de uma vida nova. Com apoio da equipe multidisciplinar, ele retomou os estudos abandonados ainda na oitava série e passou a enxergar novas perspectivas de recomeço, com oportunidades de estudo e emprego. Abandonado pelos pais na infância e distante das filhas, ele afirma ter encontrado na unidade uma rede de apoio importante para reconstruir a própria trajetória. “Antes eu não conseguia me adaptar à sala de aula. Hoje estou conseguindo. Fazia mais de dez anos que eu não estudava”, relata. ”Eu não queria vir para cá, porque já passei por três internações. Mas, chegando aqui, me deparando com essa realidade, tem sido algo muito interessante na minha caminhada.”
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Impacto positivo no comércio e para os moradores da região
A mudança também passou a ser percebida por moradores e comerciantes da região central. Empresários relatam aumento da circulação de pessoas, retomada gradual do comércio e maior sensação de segurança. “A Cracolândia acabou, não existe mais. Nós tivemos um período de pesadelo por conta do fluxo, nós sofremos muito. Estamos vivendo hoje em uma rua tranquila, com muita segurança”, disse Mário Kamei, comerciante da rua General Osório.
Comerciantes relatam que, nos períodos mais críticos da crise, houve perda de até metade do faturamento, além de furtos, depredações e interrupções de serviços básicos. “Agora tem polícia logo na porta”, afirmou José Peloso Filho, comerciante da rua dos Gusmões. Para moradores e empresários da região, o esvaziamento das cenas abertas também abriu perspectiva para a recuperação econômica e urbana do centro da capital.
Entre os projetos em andamento está o Novo Centro Administrativo do Estado de São Paulo, que reunirá estruturas hoje distribuídas em 40 endereços em um complexo de sete edifícios e dez torres na região dos Campos Elíseos. A iniciativa prevê a instalação de cerca de 22 mil servidores, além de teatro, auditórios, salas multiuso, novo terminal de ônibus e ações de requalificação urbana e restauração de imóveis históricos.
Projeto do Novo Centro
O Novo Centro Administrativo Campos Elíseos é um projeto do Governo de São Paulo para concentrar, na região central da capital, o gabinete do governador, secretarias e órgãos estaduais hoje distribuídos em mais de 40 endereços. A PPP foi leiloada em 26 de fevereiro de 2026 e vencida pelo consórcio MEZ-RZK Novo Centro, com investimento estimado em R$ 6 bilhões para a construção de sete edifícios e dez torres, com capacidade para cerca de 22 mil servidores.
Além de modernizar a gestão pública e reduzir custos administrativos, o complexo prevê novo terminal de ônibus no lugar do atual Terminal Princesa Isabel, espaços de convivência, teatro, auditórios, áreas de comércio e serviços, certificação ambiental LEED Gold e restauração de 17 imóveis tombados, em uma iniciativa associada à requalificação urbana, histórica e econômica dos Campos Elíseos.
