

“As famlias dos portugueses e ndios em So Paulo esto to ligadas hoje umas com as outras […] e a lngua que nas ditas famlias se fala a dos ndios, e a portuguesa a vo os meninos aprender escola”, descreveu Padre Antnio Vieira, em 1694, sobre a forma como a populao se comunicava no Brasil Colnia.
O encontro entre povos originrios, colonizadores e mestios fez surgir as chamadas lnguas gerais, idiomas usados como forma de comunicao entre povos com lnguas maternas diferentes.
No Brasil, a lngua geral se dividiu em lngua geral amaznica, falada no norte do pas, e lngua geral paulista (LGP), que predominou na poro meridional. Em partes da Amrica colonizada pela Espanha, tambm surgiram idiomas de contato, como o quchua, falado na regio dos Andes.
Identidade paulista
Durante os sculos XVI e XVIII, a lngua mais falada na parte do territrio brasileiro que hoje forma o estado de So Paulo no foi o portugus, mas a LGP. O idioma nasceu na Capitania de So Vicente, regio administrativa que exerceu papel central na organizao inicial da colonizao portuguesa.
A lngua foi originada a partir do tupi falado pelos povos indgenas do litoral antes da chegada dos europeus e, aos poucos, incorporou influncias do portugus, at se formar um idioma prprio. Um dos exemplos da interferncia da lngua portuguesa no idioma a palavra chapu, que em tupi akngaba, e na LGP era xapw – mais prximo do lxico latim.
“A primeira gerao, geralmente, vai falar uma lngua tribal, alm da lngua geral. J as geraes seguintes vo s falando mesmo a lngua geral, praticamente esquecendo a lngua dos pais”, descreve o fillogo e lexicgrafo Eduardo Navarro sobre a forma como o idioma se transformou ao longo do tempo.
Alm do tupi antigo e do portugus, a LGP tambm teve influncia do guarani, idioma falado principalmente por povos do Paraguai, onde hoje a segunda lngua oficial. Esse contato aconteceu atravs dos bandeirantes, que trouxeram indgenas paraguaios escravizados para terras paulistas.
Caminhos da lngua
As bandeiras foram expedies para captura de indgenas para o trabalho escravo e procura por metais preciosos. Ao avanarem para regies hoje pertencentes a estados como Mato Grosso, Gois, Minas Gerais e Paran, os bandeirantes tambm levavam consigo a lngua falada nas famlias paulistas.
Historiadores definiram o territrio desbravado e povoado pelos bandeirantes como Paulistnia. Segundo a historiadora e professora da Unesp Fernanda Sposito, o termo foi criado para reforar o mito de uma grandeza paulistana. ” difcil pensar que existisse uma s identidade paulistana que justificasse, porque at hoje o estado de So Paulo muito diverso”, diz.
Para Fernanda, entender como a LGP se espalhou tambm desmistificar a ideia de que os bandeirantes eram homens brancos e colonizadores europeus. “O fato deles falarem a lngua geral denota muito o quanto eles eram miscigenados. Quando voc vai pegar a genealogia da histria de So Paulo, muitos desses chamados grandes homens brancos tinham mes indgenas”, explica.
Diferente do que retratado em muitas esttuas e pinturas dos bandeirantes, que reforam uma narrativa de grandiosidade e herosmo, esses exploradores eram em sua maioria mamelucos – termo usado para descrever filhos mestios de homens brancos e mulheres indgenas.

Pintura de Benedito Calixto, 1903
Desaparecimento
Em 1758, o ministro portugus Marqus de Pombal publicou o Diretrio dos ndios, lei caracterizada por uma srie de diretrizes sobre os aldeamentos indgenas. Entre as normas impostas, estava a proibio das lnguas gerais e o estabelecimento do portugus como nico idioma permitido. No entanto, Navarro explica que “uma lei no iria conseguir acabar com uma lngua assim, porque no tinha meios de implantar, de se impor as suas vontades”.
Fernanda explica que a proibio no afetou apenas a lngua geral, mas tambm outros dialetos indgenas. “Muitos desaparecimentos de lnguas originrias, etnias que hoje no falam mais as suas lnguas de origem, tiveram esse apagamento desde o sculo XVIII por essa obrigatoriedade de falar o portugus e a proibio de falarem as suas lnguas nativas”, conta.
Mesmo com a proibio legal, a LGP continuou a ser o principal idioma do cotidiano – afinal, o portugus era aprendido nas escolas, em uma poca em que a alfabetizao era restrita a uma pequena parcela privilegiada. Foi apenas com a onda migratria europeia que a lngua foi, aos poucos, sendo substituda nos lares paulistas, at desaparecer por completo no sculo XX.
A extino ocorreu porque, apesar da LGP ser o idioma mais falado na poca, o portugus era a lngua usada na escrita, literatura e documentos oficiais. “A lngua geral era a lngua eminentemente falada, no escrita. Essas condies so frgeis e no resistem ao tempo”, diz Navarro. por isso que existem muitos poucos registros da lngua geral paulista.
Resqucios
Apesar da falta de documentos histricos, registros do tupi antigo e da LGP podem ser encontrados nos topnimos – nomes prprios de lugares, como cidades, bairros e rios. O Rio Tiet, meio de transporte essencial para as bandeiras, tem origem tupi-guarani e significa rio verdadeiro.
No interior do estado de So Paulo, vrios municpios trazem resqucios da LGP no nome. Araraquara, por exemplo, vem de ara-ra-kara, que significa covil das araras. Muitos bairros na capital paulista tambm carregam essa herana, como Tatuap (caminho do tatu), Itaim (pedra pequena) e Anhangaba (rio do mau esprito).
A partir da anlise desses nomes, tambm possvel entender algumas mudanas que o tupi sofreu ao se tornar uma lngua geral em So Paulo. A palavra ibitira (juno de yby = terra e tyba = grande), na LGP, se tornou Votu – da que surgiu o nome do municpio Votorantim, que significa morro pontudo.
Vises de mundo
Para Navarro, as lnguas nos ajudam a entender as vises de mundo dos povos. “O ndio no sabia o que era dinheiro, o que era ouro, no tinha propriedade privada. Ento, certas coisas no vo estar presentes na lngua deles. Mas isso vai mudar com a lngua geral paulista, porque j lngua de ndios em contato, de descendentes”, exemplifica.
Fernanda ainda alerta que preciso estar atento a forma como as populaes indgenas foram retratadas ao longo do tempo. “Trazendo para vrios momentos histricos, no s a lngua geral, mas a lngua em si, o discurso e a narrativa sobre o que aconteceu, so mecanismos de conquista tambm”.
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Com informações da Assembleia Legislativa de São Paulo



