Quando Patrcia Lafuria teve a filha do meio, Pietra Mutti, hoje com 28 anos, no imaginava que enfrentaria um dos momentos mais difceis da vida. Me de cinco filhos, foi nesse perodo que comeou a lidar com sintomas de depresso ps-parto, numa poca em que a sade mental materna ainda era pouco discutida. No havia informao, acolhimento ou apoio psicolgico.
“Eu sentia uma tristeza profunda, um vazio constante, crises de choro, medo, ansiedade e um cansao emocional muito grande, mas no entendia o que estava acontecendo comigo”, relembra Patrcia, que hoje atua como psicanalista e assessora parlamentar. “O mais angustiante era justamente no conseguir compreender aqueles sentimentos, porque a maternidade sempre foi apresentada como um momento exclusivamente feliz”, aponta.
Segundo Patrcia, um dos maiores desafios daquele perodo foi enfrentar o sofrimento emocional sem conseguir falar abertamente a respeito. Naquela poca, lembra ela, final da dcada de 1990, ainda existia uma presso silenciosa para que a mulher continuasse forte o tempo inteiro, mesmo emocionalmente fragilizada, cuidando da casa, da famlia e dos filhos.
“Muitas mes sofriam caladas por medo de julgamento e vergonha. A mulher precisava apenas suportar tudo sozinha”, recorda. “Hoje eu entendo que precisava desesperadamente de ajuda e acolhimento, mas naquela poca nem eu mesma sabia identificar aquilo como um problema emocional”, reconhece.
E foi justamente pensando na necessidade de ampliar o debate e fortalecer polticas pblicas voltadas ao tema que a Assembleia Legislativa do Estado de So Paulo aprovou, e o Governo sancionou, a Lei 17.937/2024. A medida, que acaba de completar 2 anos, instituiu no calendrio oficial paulista o Maio Furta-Cor, ms de conscientizao e incentivo ao cuidado da sade mental materna.
A iniciativa busca dar visibilidade ao tema e promover aes de conscientizao sobre os desafios enfrentados pelas mulheres durante a gestao, o ps-parto e toda a jornada da maternidade. O nome da campanha faz referncia tonalidade “furta-cor”, que muda de acordo com a luz recebida, uma analogia s mltiplas emoes e transformaes vividas pelas mes. “Simboliza as inmeras emoes vividas pela mulher nesse perodo: amor, medo, alegria, insegurana, exausto, esperana e dor”, explica Patrcia.
A lei de autoria do deputado estadual Capito Telhada (PP), com coautoria das deputadas Marina Helou (PSB) e Letcia Aguiar (PL).
“Ter o ms Maio Furta-Cor no calendrio oficial de eventos do Estado de So Paulo uma forma de lembrar que inmeras famlias enfrentam, e j enfrentaram, questes relacionadas sade mental materna. A minha famlia sentiu isso na pele, e esse assunto precisa de visibilidade”, afirmou o parlamentar. “Precisamos falar sobre mes que passam por depresso, ansiedade, transtorno de estresse ps-traumtico, psicose ps-parto e tantas outras condies. A campanha Maio Furta-Cor contribui para que esse tema seja visto e debatido, permitindo que mais pessoas tenham acesso informao, reconheam os sinais e procurem ajuda”, completou.
Para Patrcia, a aprovao de uma lei voltada a algo que tanto a marcou representa no s acolhimento e conscientizao, mas esperana para milhares de mulheres. “Durante muitos anos, mes sofreram caladas, sem informao e sem compreender o que estavam vivendo emocionalmente. Quando o poder pblico reconhece oficialmente a importncia da sade mental materna, ajuda a salvar vidas, fortalecer redes de apoio e incentivar polticas pblicas voltadas ao acolhimento emocional das mes”, afirmou.
Sinais de alerta
A sade mental materna, tambm chamada de sade mental perinatal, est ligada ao bem-estar psicolgico da mulher. Engloba desde o planejamento reprodutivo, passando pela gestao e o ps-parto, at o primeiro ano aps o nascimento do beb. um perodo que envolve profundas transformaes fsicas, hormonais, emocionais e sociais, o que pode aumentar a vulnerabilidade ao desenvolvimento de transtornos mentais.
Dados citados pela Associao Maio Furta-Cor, com base em levantamentos nacionais e internacionais, apontam que 25% das gestantes apresentam sintomas de depresso durante a gravidez, enquanto 30% das mulheres no puerprio enfrentam sintomas depressivos aps o parto. Ainda assim, a maior parte (82% dos casos) permanece sem diagnstico ou tratamento adequado.
Apenas no territrio brasileiro, essa porcentagem representa cerca de 860 mil mulheres afetadas anualmente por quadros como depresso, ansiedade e outros transtornos relacionados maternidade.
“A gente precisa ampliar essa viso do cuidado da sade mental das mulheres j desde a gestao. Isso passa por levar informao de qualidade para a sociedade e tambm por capacitar os profissionais de sade para reconhecerem os sinais de sofrimento emocional”, explica a psicloga perinatal Paula Roberta Garcia, referncia no assunto.
De acordo com a especialista, fatores como histrico de depresso ou ansiedade, gravidez no planejada, ausncia de rede de apoio, dificuldades financeiras, violncia domstica e perdas gestacionais anteriores j valem como importantes sinais de alerta durante o pr-natal. “A partir da, acompanhamos sinais emocionais como tristeza persistente, choro frequente, sensao de vazio, irritabilidade intensa e at sentimentos de arrependimento em relao gestao. So sinais que precisam ser acolhidos tanto pelos profissionais quanto pela famlia”, afirma.
Entre os sintomas mais comuns da depresso perinatal e da depresso ps-parto esto tristeza persistente, ansiedade excessiva, sensao constante de culpa, desnimo, alteraes importantes no sono e no apetite, cansao extremo e isolamento social. Em alguns casos, a mulher tambm pode apresentar dificuldade em criar vnculo com o recm-nascido.
Garcia ressalta que o momento adequado para buscar ajuda quando a mulher percebe que algo no est bem emocionalmente. “O sofrimento emocional no puerprio tem muitas faces. Nem sempre a mulher vai rejeitar o beb ou demonstrar claramente que est adoecendo. Muitas vezes ela apenas se sente incapaz, frustrada, esgotada ou completamente perdida”, explica.
A psicloga tambm faz um alerta para pensamentos recorrentes relacionados morte, autoleso ou agresso criana, considerados sinais de emergncia emocional. “Isso no torna essa mulher uma m me. Isso a torna uma mulher que est sofrendo e que precisa e merece cuidado imediato”, ressalta.
A boa notcia que a depresso perinatal tem tratamento e pode ser acompanhada de bons resultados quando identificada precocemente. As principais abordagens incluem psicoterapia, acompanhamento psiquitrico quando necessrio, uso de medicamentos compatveis com a gestao e amamentao, alm do fortalecimento da rede de apoio familiar e social.
Outro ponto destacado por Paula Roberta Garcia a necessidade de romper com a romantizao da maternidade, o que muitas vezes dificulta o pedido de ajuda. “O mito da me perfeita faz com que muitas mulheres acreditem que precisam dar conta de tudo sorrindo. Quando a realidade da maternidade no corresponde expectativa criada socialmente, surgem culpa, frustrao e sofrimento emocional”, afirma.
Para a especialista, acolhimento, escuta qualificada e polticas pblicas permanentes so fundamentais para prevenir o agravamento dos quadros de adoecimento materno. “Cuidar da sade mental materna no cuidar apenas da me. cuidar do beb, da famlia e de toda a sociedade”, conclui.

Assunto de homem
A discusso sobre sade mental materna no envolve apenas as mulheres. Pesquisadores do tema so categricos ao defender que o cuidado tambm passa pela participao ativa dos parceiros homens.
A mesma linha de raciocnio defendida pela deputada estadual Marina Helou (PSB), coautora da Lei 17.937/2024. “No existe cuidado se a gente no incluir os homens nessa equao. No tem como a mulher sustentar tudo sozinha. Incluir os homens no cuidado fundamental para a sade mental materna, para o desenvolvimento saudvel das crianas e para a responsabilizao dos homens pela vida”, afirmou.
A parlamentar tambm alerta para os impactos que o sofrimento emocional materno pode causar no desenvolvimento infantil. “Quando a gente negligencia essas mulheres, tambm negligencia essas crianas e esses bebs. A falta de sade mental materna tem impacto direto no desenvolvimento saudvel, cognitivo e afetivo das crianas”, completou.
A psicloga perinatal Paula Roberta Garcia concorda e afirma que ainda existe uma cultura que atribui exclusivamente s mulheres toda a responsabilidade pelo cuidado: “Precisamos romper com a ideia de que essa responsabilidade exclusivamente da mulher. A sade mental materna uma responsabilidade compartilhada, e cada pessoa ao redor dessa me tem um papel concreto”.
Garcia defende uma mudana cultural na forma como a paternidade encarada. “Ainda existe a ideia de que cuidar coisa de mulher, de que o homem apenas ajuda. Homens so completamente capazes de cuidar e precisam ser convocados para isso desde a gestao”, ressaltou.
Campanhas
Campanhas de conscientizao tm papel importante para ampliar o debate sobre sade mental materna. Uma das principais iniciativas promovida pela Associao Maio Furta-Cor, organizao da sociedade civil sem fins lucrativos criada para fortalecer aes de acolhimento, conscientizao e formulao de polticas pblicas voltadas ao tema.
A entidade rene profissionais da sade, mes, pesquisadores, gestores pblicos e instituies em torno da defesa da sade mental materna como uma pauta estruturante de sade pblica. Atualmente, o movimento est presente em todo o Brasil e em mais de 15 pases, com cerca de 245 representantes.
A campanha funciona de forma descentralizada, gratuita e colaborativa ao longo de todo o ano, com intensificao das atividades durante o ms de maio. Entre as aes promovidas esto rodas de conversa, palestras, audincias pblicas, caminhadas, mamaos, formaes tcnicas e produo de contedos educativos voltados ao acolhimento e informao.
Para as fundadoras da campanha, Patricia Piper e Nicole Amorim, um dos objetivos transformar o cuidado com a sade mental materna em uma poltica pblica permanente. “A sade mental materna ainda tratada de forma fragmentada no Brasil. fundamental incorporar o cuidado em sade mental materna dentro da rede pblica de ateno perinatal, desde o pr-natal at o ps-parto, incluindo rastreio sistemtico para depresso, ansiedade, sofrimento psquico e violncia”, afirmaram.
As campanhas da associao, ainda segundo as fundadoras, j contriburam para a aprovao de mais de 250 legislaes relacionadas sade mental materna em municpios e estados brasileiros, incluindo So Paulo.
Alm da mobilizao poltica, a campanha tambm atua diretamente no acolhimento emocional de mes e famlias. “Muitas mulheres relatam que foi a primeira vez que conseguiram falar sobre sofrimento materno sem culpa ou julgamento. Existe algo muito potente quando uma me percebe que no est sozinha”, destacaram Patricia Piper e Nicole Amorim.
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Com informações da Assembleia Legislativa de São Paulo




