A Assembleia Legislativa do Estado de So Paulo recebeu, nesta quarta-feira (10), uma audincia pblica para discutir a transformao do antigo prdio do DOI-CODI (Destacamento de Operaes de Informaes – Centro de Operaes de Defesa Interna) em um espao de memria sobre a ditadura militar brasileira. O encontro aconteceu no Plenrio Tiradentes e foi aprovado pela Comisso de Infraestrutura da Casa.
A iniciativa foi proposta pelo deputado estadual Guilherme Cortez (Psol), membro efetivo da comisso. “Hoje, se voc passa em frente ao prdio, onde atualmente funciona uma delegacia da Polcia Civil, no h sequer uma placa ou indicao do que aconteceu ali. Isso um problema grave, porque um pas que no conhece sua histria est fadado a repetir, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado”, afirmou.
A audincia reuniu ex-presos polticos, sobreviventes do regime militar, representantes de movimentos sociais e pesquisadores. A historiadora e coordenadora do Grupo de Trabalho do Memorial DOI-CODI, Deborah Neves, disse que o principal objetivo viabilizar a transferncia do imvel, atualmente vinculado Secretaria da Segurana Pblica, para permitir a criao de um memorial permanente dedicado preservao da memria histrica do perodo.
“Que seja um espao aberto participao de toda a sociedade, porque este um tema de interesse coletivo”, afirmou. “O grupo de trabalho j realiza visitas mediadas, pesquisas arqueolgicas e atividades culturais desde 2017. O que estamos debatendo agora a transferncia do complexo para a Secretaria da Cultura, para transform-lo definitivamente em um museu memorial”, explicou.
Instalado na Vila Mariana, o DOI-CODI foi um dos principais rgos de represso poltica durante a ditadura militar. Entre as dcadas de 1960 e 1980, o local foi utilizado para interrogatrios, prises, torturas e outras violaes de direitos humanos praticadas contra opositores do regime. A estrutura fsica, composta por quatro edifcios, permanece intacta.
Na audincia, tambm foi destacada a importncia de que o espao se torne, no futuro, um local de pesquisa, reunindo documentos, relatos e registros histricos, alm de promover atividades educativas voltadas reflexo sobre democracia e cidadania.
“Infelizmente, o nosso pas insiste em rejeitar a construo de uma memria coletiva. assim com a escravido, com a ditadura militar, com vrios processos polticos que o nosso pas viveu, esto na nossa histria, e que a gente precisa lutar tanto por reconhecimento”, afirmou a deputada Paula da Bancada Feminista (Psol), que tambm participou do encontro.
Sobreviventes do DOI-CODI
Entre os participantes da audincia estava o aposentado Tullo Vigevani, ex-preso poltico que permaneceu detido no DOI-CODI entre 5 e 25 de agosto de 1970. Hoje com 83 anos, ele destaca a importncia da preservao desses espaos para as futuras geraes.
” muito importante conservar os lugares de memria. As pessoas que viveram aquele perodo esto desaparecendo. Se no conseguirmos constituir fisicamente essa memria, por meio de documentos, depoimentos e reconstrues histricas, corremos o risco de perder uma parte fundamental da histria brasileira e paulista”, afirmou.
Vigevani tambm relembrou o impacto da priso em sua famlia. “Meu filho praticamente nasceu no DOI-CODI, porque minha esposa foi presa logo depois de mim, j grvida, e precisou ser liberada temporariamente para dar luz. So lembranas que nunca desaparecem. Muitas pessoas que passaram por l carregam sequelas fsicas e emocionais para a vida”, concluiu.
“Ns que passamos pelo DOI-CODI no somos apenas sobreviventes. Somos tambm vencedores”, afirmou o jornalista e escritor Milton Saldanha, tambm ex-preso poltico do DOI-CODI. “O Brasil teve 380 anos de escravido. L esto todas as respostas para o que o Brasil hoje. E quantos museus da escravido existem no Brasil? Apagaram a memria”, alertou.
Assista audincia pblica, na ntegra, na transmisso feita pela TV Alesp:
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Com informações da Assembleia Legislativa de São Paulo




