Quando Cristiane Margarida Lopes Lorca, conhecida como Cris Lorca, chegou a São Vicente em 1989 com um carrinho de pastel na Praia do Itararé, dificilmente imaginaria que, anos depois, se tornaria uma das figuras mais importantes na história da luta LGBTQIA+ da Cidade. Hoje, aos 60 anos, ela é reconhecida não apenas pelo tradicional Quiosque da Cris, localizado na Avenida Ayrton Senna da Silva, no Itararé, mas pela trajetória construída a partir da resistência, do acolhimento e do apoio constante à comunidade.
Referência histórica no município, Cris dá nome à Diversa Week Cris Lorca, evento voltado à celebração da diversidade e ao fortalecimento do empreendedorismo LGBTQIA+ em São Vicente. Para ela, esse reconhecimento é resultado de anos dedicados a oferecer um espaço seguro para quem, durante muito tempo, não encontrava acolhimento em outros lugares.
“Eu acredito muito que tudo isso foi feito com muito amor e muito reconhecimento, por eu poder acolher o público LGBT e eles mesmos sentirem que teriam um espaço onde se sentariam e ficariam confortáveis. O trabalho que eu faço hoje é em cima disso: eles poderem vir aqui e se sentirem acolhidos”.
A história começou de forma simples. Vinda do interior, Cris iniciou seu trabalho vendendo pastéis na praia e logo percebeu que aquele pequeno espaço começava a atrair pessoas que buscavam algo que, na época, ainda era raro: segurança para simplesmente existir.
“Em 1989, quando cheguei aqui para iniciar um trabalho com um carrinho de pastel, percebi que, mesmo sendo um trabalho tão pequeno, eu tinha clientes que ficavam por perto, prestando atenção naquele meu trabalho de empreendedorismo LGBT. Eu não imaginava que, chegando em São Vicente, teria aquele acolhimento ali na areia”.
Naquele período, quando a sigla utilizada ainda era GLS, Cris também enfrentava seu próprio processo de autodescoberta. Ela lembra que assumir quem era não foi simples e que o preconceito marcou parte importante do início dessa caminhada.
“Eu tinha 22 anos, era uma garotinha que também estava se conhecendo. Até os meus 21 anos eu não era aberta sobre ser uma pessoa GLS. Minha mãe passou a saber de mim quando sofri uma agressão física. Tive que contar para ela que tinha sido agredida por ser gay”.
Com o tempo, o antigo carrinho deu lugar ao trailer “Mudança Radical”, espaço onde ela passou a consolidar o trabalho que faria dela uma referência para a comunidade. Foi ali que levantou pela primeira vez a bandeira arco-íris e decidiu que criar um ambiente onde pessoas LGBTQIA+ pudessem frequentar sem medo.
“Eu apanhava de skinheads. Eles jogavam cachorros pitbull em cima das minhas funcionárias porque elas seguravam a bandeira. Eu era agredida por homofóbicos. Naquela época, não tínhamos a mídia ao nosso lado, não existia esse espaço para contar o que a gente passava. Era eu contra o mundo”.
Anos depois, o espaço cresceu e se transformou no atual Quiosque da Cris, hoje um dos pontos mais conhecidos da orla vicentina. Desde o início, a regra sempre foi uma só: respeito.
“Aqui dentro do bar eu sempre prezei pelo respeito, tanto para o lado LGBTQIA+ quanto para o lado heterofriendly. Acho que nós convivemos em sociedade e temos que respeitar para sermos respeitados. Isso era uma lei para mim”.
Ao longo de décadas, Cris enfrentou episódios frequentes de discriminação, dificuldades financeiras e momentos em que se sentiu abandonada até por pessoas que ajudou a acolher. Ainda assim, nunca abandonou o compromisso que construiu com a comunidade.
“Tenho pessoas trans trabalhando comigo. Sempre acolhi esse público. Quantas travestis apanhavam aqui no Bolsão do Itararé naquela época? Eu ia para o meio daquele monte de homens que estavam chutando as meninas, tirava elas de lá, trazia para o quiosque, acolhia, dava remédio e limpava os machucados. Eu fazia isso”.
Para ela, o empreendedorismo foi um caminho que permitiu gerar impacto não apenas em sua própria vida, mas abrir oportunidades para outras pessoas que, muitas vezes, enfrentam dificuldades para ingressar no mercado de trabalho.
“Esse trabalho de empreendedorismo que fiz, contratando pessoas LGBTs para trabalhar, valorizou esse público. Hoje nós temos advogados, médicos, professores, jornalistas LGBTs. Por que não valorizar esse público? Eu não estou aqui para fazer o meu nome, meu nome eu já fiz. Estou aqui para que eles evoluam profissionalmente”.
Depois de quase quatro décadas acompanhando diferentes gerações, Cris reconhece que São Vicente mudou e que avanços importantes foram conquistados no combate ao preconceito e na garantia de direitos.
“Hoje nós temos leis que nos protegem, e isso é muito significativo. Tivemos conquistas de pessoas que lutaram por nós. A Diversa Week, por exemplo, abre portas para o público LGBT em outras empresas. Isso tem uma importância enorme por tudo o que passei”.
Mesmo diante de tantos desafios, incluindo uma longa batalha pessoal pela saúde, ela segue mantendo a mesma postura que carregou durante toda sua trajetória: continuar em frente. Em tratamento contra um câncer desde 2006, Cris conta que recentemente passou a integrar um estudo experimental conduzido por um laboratório de Boston, nos Estados Unidos, trazendo novas perspectivas para o tratamento.
“Hoje, estou passando por uma mudança de saúde muito grande. Mas eu agradeço a Deus porque, quando a gente não desiste, as boas notícias chegam. Recebi um convite para participar de um estudo de um laboratório de Boston. Então eu te digo: por que você vai desistir do seu caminhar? Sempre haverá uma mão estendida à sua frente para te acolher”.
Ao olhar para toda sua história, ela deixa uma mensagem para quem hoje enfrenta dificuldades parecidas com aquelas que viveu décadas atrás.
“Não desista. Não desista da sua bandeira, não desista de quem você é e não desista do amor-próprio. Faça o seu melhor hoje. Você vai ser valorizado pelo teu potencial, pela pessoa que você é e pelo teu empreendedorismo. Desistir, nunca”.
A trajetória de Cris Lorca acompanha parte importante da história da luta por respeito e visibilidade da comunidade LGBTQIA+ em São Vicente. Ao longo de 37 anos, transformou um pequeno negócio iniciado na areia da praia em um espaço de acolhimento, resistência e representatividade que permanece como referência para a Cidade até hoje.
Por Julia Guedes Rodrigues de Lima e Luan Guerato
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Com informações da Prefeitura de São Vicente



