Estimativa do Ministrio da Sade aponta que cerca de 625 mil pessoas necessitam de cuidados paliativos no Brasil, prticas essenciais para aumentar o bem-estar de pacientes com doenas graves, crnicas ou em estgio avanado. Com o envelhecimento populacional, o cenrio tende a se agravar: segundo o IBGE, at 2070, cerca de 38% da populao ser formada por idosos. Isso, de acordo com o professor da Faculdade de Medicina da Unesp, Edison Iglesias, coincide com a maior ocorrncia de doenas que causam dor.
De acordo com a professora Marina Salvetti, os cuidados paliativos ainda sofrem com muito preconceito por conta da falta de conhecimento e de todo tabu que gira em torno da morte.
“Esse conceito est errado porque cuidado paliativo no fazer nada ou fazer qualquer coisa. um cuidado muito importante que est preocupado em aliviar o sofrimento e promover conforto para pessoas que vivenciam doenas que ameaam a vida. No s para os pacientes, mas tambm para a famlia e cuidadores”, destaca Salvetti.
A professora indicou que os cuidados paliativos precisam estar presentes desde o diagnstico de uma doena ameaadora da vida – independentemente se o risco de morte iminente ou no.
“Logo que tiver o diagnstico voc j deve comear a falar sobre cuidados paliativos. medida que a doena avana, o tratamento curativo pode ir reduzindo sua possibilidade e assim, os cuidados paliativos vo se ampliando. como se fosse um equilbrio entre esses dois polos”, definiu.
O professor Edison Iglesias vai no mesmo sentido de Salvetti e desmistifica a ideia de que cuidados paliativos so necessrios apenas na iminncia da morte.
“Tem um monte de doenas degenerativas que no aumentam o risco de morte. Por exemplo, um paciente com esclerose mltipla, a mortalidade dessa pessoa no aumenta, mas ela tem um perodo de dependncia funcional muito grande, espasmos, dor, dificuldade de se comunicar e isso tudo traz sofrimento para as pessoas”, diz ele.
Iglesias aponta que as prticas de cuidados paliativos existem justamente para aliviar a dor e o sofrimento atravs do trabalho de equipes interdisciplinares, que envolvem profissionais como mdicos, enfermeiros, psiclogos, terapeutas ocupacionais e nutricionistas.
O especialista afirma que a filosofia dos cuidados precisa ser absorvida por todos os trabalhadores da sade desde a ateno primria, no s em centros especializados. Ele lembra que a disciplina de cuidados paliativos s se tornou obrigatria em cursos de medicina em 2023.
Iglesias explica ainda que, em um mundo ideal, os pacientes que so recebidos na ateno primria de sade, no momento do diagnstico, deveriam ser acompanhados por equipes de sade que possuem os conceitos de cuidados paliativos bem definidos e colocam em prtica sua filosofia. Somente se as chances de cura diminurem e os sintomas se agravarem, o paciente pode precisar ser atendido em unidades especializadas.
“Uma coisa a organizao do servio e outra coisa a proviso do cuidado. Eu preciso que todo mundo seja capaz de prover e, quando a demanda fica muito intensa porque esse paciente est com uma carga de sintomas muito grande, eu preciso ter equipes especializadas para ajudar”, pontua.
Sem desconfortos desnecessrios
Jorge, o pai de Ana Cristina Hashimoto, recebeu o diagnstico de Parkinson em 2010. Conviveu com a doena por anos at que o quadro geral da doena se agravou na pandemia, somado um diagnstico de demncia senil. Desde a piora, ele passou por uma instituio de longa permanncia com cuidado intensivo para lidar com os quadros de alucinaes e dificuldades de engolir.
Em 2023, o diagnstico de um tumor, que no poderia ser tratado nem retirado, fez com que um centro especializado em cuidados paliativos se tornasse uma opo para a famlia. Coberto pelo convnio, o pai pode passar os ltimos momentos de sua vida com o acompanhamento da famlia e sem intervenes desnecessrias.
Ana Cristina conta que a equipe multidisciplinar presente na clnica tinha a noo de evitar desconfortos desnecessrios no tratamento de infeces que muitas vezes o acometiam.
“Meu pai teve infeco vrias vezes, mas elas sempre buscavam um antibitico que melhorasse a infeco, e que ao mesmo tempo no causasse mal-estar. Entre escolher um antibitico que fosse deflagrar totalmente a infeco, mas que ele fosse ter muito desconforto, optaram por uma opo de antibitico que ia diminuir aquilo l mas que ele fosse ter conforto.”
Ana Cristina conta que a finitude era um dos temas muito abordados dentro da clnica, visto como um processo natural da vida e no de uma forma idealizada. “Elas queriam perceber se eu e meu irmo tnhamos noo que meu pai estava em um processo de finitude. A gente tinha essa noo, mas elas tinham muito tato para ir avaliando o quanto a gente estava entendendo de tudo aquilo”, conta.
Todo mundo um dia pode precisar
O centro pioneiro no estado de So Paulo e um dos pioneiros no Brasil foi o Servio de Terapia Antlgica e de Cuidados Paliativos do Hospital das Clnicas da Faculdade de Medicina da Unesp, fundado em 1993 na cidade de Botucatu. O professor Guilherme de Barros comeou a trabalhar como residente no servio nos seus primeiros anos de atuao e aponta que, na poca, a noo de cuidados paliativos ainda era muito limitada.
“Na dcada de 90 era muito incomum que pacientes que no tivessem cncer fossem indicados para servios de dor, diz. O fundador deste servio, tambm professor da Unesp, Lino Lemonica, foi uma das principais referncias na rea de dor do pas. Guilherme conheceu o professor Lino e conta que, na poca do seu falecimento em 2019, pde receber o cuidado que sempre acreditou, sem passar por intervenes que causavam sofrimento.
Guilherme indica que, como todos um dia vo passar pela morte, um dever coletivo da sociedade garantir que este momento possa ocorrer sem dor e com mais bem-estar. “Geralmente eu dou essa aula [de cuidados paliativos] de uma maneira muito egosta, porque eu quero que eles sejam melhores mdicos, mas a minha real inteno que eles sejam bons mdicos para cuidar de mim no momento que chega a minha hora”, conclui.
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Com informações da Assembleia Legislativa de São Paulo
