Lucas Brito

Saúde

Quando colocou a nova prótese pela primeira vez, Beatriz de Jesus da Cunha Silva, de 64 anos, sabia que estava vivendo um momento único. Habituada com o equipamento há quase duas décadas, após amputar o braço esquerdo em decorrência de um câncer, ela agora conta com um modelo totalmente personalizado de acordo com suas características e necessidades.

A entrega marca um avanço na reabilitação oferecida pela Prefeitura de São José dos Campos e integra o projeto “PET-Saúde: Informação e Saúde Digital”, do Ministério da Saúde, que une profissionais da rede municipal, pesquisadores e estudantes para desenvolver soluções inovadoras voltadas à melhoria da assistência.

Desenvolvida em parceria com a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), no campus do município, a iniciativa utiliza impressão 3D para produzir próteses de membro superior e ampliar o acesso da população às tecnologias assistivas pelo SUS (Sistema Único de Saúde).


Conheça a história de Beatriz e como ela recebeu sua nova prótese | Foto: Claudio Vieira/PMSJC

Superação

Casada e mãe de quatro filhos, Beatriz, ou Bia, como prefere ser chamada, é um testemunho de resiliência. Ao vestir a prótese nova, na Unidade de Reabilitação Leste, ela relembra sua trajetória.

Em 2007, foi diagnosticada com um sarcoma no braço esquerdo. O tumor se manifestou de forma silenciosa, acompanhado inicialmente por dores intensas e contínuas.

“Na época, a médica disse que eu tinha três meses de vida. Você fica sem chão quando recebe uma notícia dessas”, conta Beatriz.


Beatriz na Unidade de Reabilitação Leste | Foto: Claudio Vieira/PMSJC

Devido à necessidade de conter o avanço da doença, Bia passou por uma amputação do antebraço, enfrentou tratamentos de quimioterapia e uma posterior cirurgia no pulmão.

A perda do membro representou um impacto profundo, pessoal e profissional.

“Eu era costureira, dona de uma lojinha. Vendi tudo, o maquinário, tecidos… não tinha forças para continuar”.

Alguns meses depois, Beatriz recebeu sua primeira prótese pela Prefeitura e começou a reconstruir sua jornada.

“Tive dificuldades para me acostumar, porque ela era um pouco pesada. Mas eu não gostava de ficar sem, então usava mesmo com o incômodo”, explica.

Porém, o retorno às máquinas de costura ainda iria demorar. Foi só durante a pandemia de covid, em um momento de fragilidade emocional, que encontrou no voluntariado religioso uma oportunidade, costurando máscaras de proteção para doação.

“Minha cabeça estava mal. Na igreja, voltei a costurar para ajudar as pessoas, e isso me fez bem. Sempre fui apaixonada por costura e estava sentindo falta”, destacou.

Uma prótese para chamar de sua

Devido à rigidez e falta de mobilidade da prótese antiga, Beatriz não conseguia utilizá-la por longos períodos, nem para costurar. Com o tempo, o equipamento sofreu um desgaste natural, limitando as suas atividades cotidianas.


Prótese antiga da Beatriz | Foto: Divulgação

No ano passado, ela deu entrada em um novo pedido junto à Prefeitura para substituir por um novo modelo, sem imaginar que faria parte de algo maior.

A vontade dela era clara: uma prótese que aliasse estética e funcionalidade.

“Queria uma que fosse leve, para usar o dia inteiro e fazer minha rotina com ela, sem ficar tirando. E eu gostaria que fosse bonita, sou vaidosa”, brincou.

Seu caso tornou-se pioneiro. Pela primeira vez, ela participou de todo o processo de confecção do novo equipamento.

O trabalho iniciou com o escaneamento do braço direito. A partir das imagens, um software reproduziu digitalmente o membro esquerdo, possibilitando a impressão em 3D de uma prótese exclusiva.


Em outubro de 2025, Beatriz tirou as medidas do braço direito para modelar a prótese | Foto: Divulgação


Escaneamento do braço direito para produção digital no software | Foto: Divulgação

Ao longo da elaboração, Bia acompanhou cada etapa. Escolheu a posição dos dedos, opinou sobre a curvatura da mão, fez testes de adaptação e resistência e definiu a cor do material utilizado.


Modelo inicial da prótese apresenta diferença no tamanho dos dedos: tudo é corrigido até a versão final | Foto: Divulgação

Beatriz não apenas recebeu uma prótese nova, ajudou a construí-la.

“Foram várias provas, fui experimentando até deixar do jeito que eu imaginava. E na verdade, ficou ainda melhor. É um sonho realizado”, afirma.


Beatriz também conheceu diferentes materiais antes de escolher qual seria o ideal para ela | Foto: Divulgação

O resultado é um modelo com encaixe preciso, que levou em consideração suas preferências, tornando o uso mais confortável e prático.

“Igual costura, né? A gente vai ajustando, faz uma barra, arruma a cintura… e no fim, acerta”, resumiu.


Beatriz cumprimenta a terapeuta ocupacional Cíntia Biancon Katata | Foto: Claudio Vieira/PMSJC

Sob medida

Desde o final de maio, Beatriz está com a versão definitiva em casa. Ela guarda o modelo antigo com carinho e também ficou com um dos protótipos impressos, recordações do que passou.

Hoje, Bia costura com a prótese nova, que permite movimentar a mão para apoiar na máquina. Inclusive, já fez uma luva para ela.

“Com a outra prótese, eu não costurava tão bem, me atrapalhava. Essa, além de ser levinha, dá pra eu virar a mão e segurar o tecido, ir empurrando. Ficou excelente, estou adorando”, disse.


Beatriz costura em casa com a nova prótese, utilizando a luva que ela mesmo fez | Foto: Claudio Vieira/PMSJC

O novo equipamento restabeleceu outras funções simples e essenciais do dia a dia, tanto no trabalho quanto nas tarefas domésticas e sociais.

“Está comigo aonde eu vou. No mercado, amarro as compras nela. Posso ir na hidroginástica com ela também, pois é à prova d’água. É maravilhoso ter minha independência”. 

Beatriz faz questão de elogiar o acolhimento e a competência de toda a equipe do Prefeitura de São José dos Campos, em especial da Unidade de Reabilitação Leste, e da Unifesp.

“Sou muito grata a cada um deles pelo ótimo atendimento e cuidado comigo. Desejo que continuem nesse caminho e essas próteses beneficiem quem precisa, assim como eu.”


Beatriz reunida com os times da Prefeitura e da Unifesp | Foto: Claudio Vieira/PMSJC


MAIS NOTÍCIAS

Saúde

source
Com informações da Prefeitura de São José dos Campos

Share.

Deixe uma respostaCancelar resposta

Exit mobile version