“Ela fazia os doces durante a semana e saía para vender nos fins de semana. Me lembro de parar nas barracas da beira da estrada, onde os produtores de queijo compravam os doces dela para revender. Era cansativo para ela, mas sempre me levava junto”, lembra.
Naquela época, ele ainda não imaginava que aquelas viagens contavam o início de uma história construída muito antes da marca existir. Para ajudar no sustento da família, Dona Lázara transformou receitas caseiras em fonte de renda e iniciou uma tradição que atravessaria três gerações.

O início de uma história
No fim da década de 1960, Dona Lázara começou a produzir goiabada cascão para complementar a renda da família. O doce conquistou rapidamente os moradores da região e fez com que a cozinha se transformasse, aos poucos, em local de trabalho. A produção cresceu e novos produtos passaram a integrar o portfólio, entre eles, a geleia de mocotó, muito consumida na época.
“Minha avó era uma mulher gigante. Hoje, a gente fala muito em empreendedorismo, mas ela nunca precisou desse nome. Ela simplesmente fazia o que precisava ser feito para cuidar da família”, recorda Marlon.
Em busca de novas oportunidades, Dona Lázara mudou-se para Uberlândia e montou uma pequena fábrica, onde acompanhava de perto todas as etapas da produção e da comercialização. “Ela conhecia cada cliente. Sabia quem comprava, quanto vendia e até que tipo de doce fazia mais sucesso em cada lugar. Não era simplesmente vender, ela criava relacionamento”, analisa.
Entre as lembranças que guarda da avó, ele destaca uma característica que continua presente na empresa: o cuidado na escolha da matéria-prima. A preocupação com a qualidade ajudou a fidelizar clientes. “Ela sabia que, se o ingrediente não fosse bom, o resultado também não seria. Esse jeito de fazer continua sendo uma referência para nós”, conta.
Ampliação do legado

Na década de 1980, a filha Valdete passou a dividir o trabalho com Dona Lázara. Enquanto a mãe mantinha a venda da goiabada e de outros doces tradicionais, a filha começou a fabricar geleias para atender clientes que já não conseguiam ser abastecidos pela matriarca.
Foi também nesse período que surgiu aquele que se tornaria, anos depois, o principal produto da empresa. Valdete comprou a receita de um doce de leite de uma conhecida da família, em Ituiutaba. A partir dali, passou meses fazendo testes até encontrar um resultado que considerasse ideal.
O produto conquistou espaço entre os consumidores e, ainda hoje, é o carro-chefe da empresa. “Ela comprou a receita, mas foi mudando tudo. Achava que tinha açúcar demais, ajustava o ponto, mudava ingredientes. No fim, o doce ganhou a identidade dela”, destaca Marlon.
Pouco tempo depois, com a morte de Dona Lázara, Valdete assumiu definitivamente o negócio. Comprou a fábrica e deu continuidade ao trabalho iniciado pela mãe. Nascia uma nova fase da empresa, que passou a atuar com o nome UDI Doces e ampliou sua presença em Uberlândia e em outros mercados, durante os anos 1990.
Ao lado da mãe, Marlon participava de toda essa transformação. “Eu cresci dentro da fábrica. Minha adolescência foi trabalhando ali, aprendendo como funcionava a produção e acompanhando minha mãe e minha avó”, relembra.
Recomeço

Ainda adolescente, Marlon trocou a sala de aula pela fábrica. Trabalhou ao lado da mãe durante o período de maior crescimento da UDI Doces. A empresa ampliou a estrutura, conquistou clientes em diferentes estados e viveu o momento de maior crescimento.
Mas o cenário mudou poucos anos depois. A crise econômica do fim da década de 1990, somada à inadimplência de clientes e às dificuldades enfrentadas por pequenos negócios, atingiu diretamente a empresa da família. “De uma hora para outra, tudo começou a desandar. Minha mãe precisou recomeçar praticamente do zero”, conta.
Sem conseguir manter a estrutura construída ao longo dos anos, Valdete reduziu a produção, concentrou esforços em poucos produtos e manteve a fábrica funcionando da forma que era possível. Nesse período, Marlon voltou a estudar, formou-se em História, fez mestrado e construiu uma carreira na área da educação.
Mesmo seguindo uma profissão diferente da mãe, nunca se afastou completamente da empresa da família. “Vivi o auge da empresa, a crise e, depois, fui construir minha vida profissional. Mas aquela história nunca deixou de fazer parte de mim”, afirma.

O retorno para preservar uma história
Décadas depois, já consolidado na carreira acadêmica, Marlon começou a perceber que a mãe diminuía o ritmo de trabalho. “Ela estava cansada. Eu tinha realizado muitos sonhos na educação e comecei a pensar que talvez fosse a hora de voltar. Encarei aquilo como um desafio pessoal”, define.
O retorno coincidiu com um momento de reflexão sobre o futuro da empresa. Durante um trabalho de posicionamento de marca, uma pergunta mudou os rumos do negócio. “Uma consultora olhou para mim e perguntou: ‘por que vocês não usam o nome da sua avó?’”, explica.
A resposta parecia simples, mas fez Marlon enxergar o que estava diante dele desde a infância. Ele percebeu que a maior riqueza não eram as receitas, mas a história da família. “Quando a gente coloca o nome Dona Lázara na embalagem, as pessoas entendem que existe uma história ali. Não é apenas um doce”, conta.
Tradição e novos mercados

O processo de reposicionamento ganhou um novo impulso com a participação no Origem Minas, programa do Sebrae Minas voltado à valorização de pequenos produtores. “O Sebrae abriu oportunidades que talvez demorassem muitos anos para surgir. Participar das feiras fez com que compradores conhecessem nossos produtos e nossa história”, destaca Marlon. Além da presença em eventos, o programa também contribuiu para aperfeiçoar o posicionamento da marca e fortalecer sua identidade.
Hoje, os Doces Dona Lázara comercializam cerca de 30 mil doces por mês, com faturamento mensal de R$ 700 mil. Presente em empórios e casas de produtos artesanais de quase todos os estados brasileiros, além das vendas pelas redes sociais, a empresa mantém a produção artesanal inspirada nas receitas construídas ao longo de mais de cinco décadas. Samuel e Gabriel Oliveira, sobrinhos criados por Marlon após a morte do irmão, também trabalham no negócio e representam a quarta geração da família ligada aos doces.
Apesar das mudanças, Marlon diz que a essência continua sendo a mesma da mulher que dirigia uma Variant carregada de doces pelas estradas do Triângulo Mineiro. “Minha avó nunca estudou administração, marketing ou gestão. Mas ela sabia cuidar das pessoas, escolher os melhores ingredientes e construir confiança. É isso que a gente tenta fazer todos os dias”, finaliza.
Conheça mais os Doces Dona Lázara: @donalazara.doces
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Com informações do SEBRAE MG




