José Roberto Amaral
Governança
Quando o dia ainda não começou para a maior parte da cidade, Alcides Olímpio de Lima já está de pé no sítio, escolhendo uma a uma as frutas que, poucas horas depois, estarão sobre sua banca na feira livre. Aos 77 anos, ele segue repetindo uma rotina que atravessa gerações: plantar, colher e vender o próprio alimento.
Esta sequência quase ritual marca a vida do feirante mais antigo em atividade em São José dos Campos, sua cidade natal. Há 58 anos, Alcides iniciava sua trajetória nas feiras livres.
A semana dele se divide entre dois mundos. Em três dias, está nas feiras da Vila Ema, Jardim Paulista e Santana, atendendo clientes que, ao longo do tempo, se tornaram conhecidos de longa data.
Nos demais, troca a movimentação das barracas pelo silêncio do sítio no bairro Pernambucano, na região sudeste da cidade, onde cultiva as frutas e hortaliças que comercializa.
“Tudo o que vendo é produzido por mim mesmo. Trabalho só com frutas da época, sempre frescas”, afirma. No sítio, ele cultiva banana, lichia, manga, caqui, abacate, além de verduras e legumes que abastecem diretamente suas bancas.
As feiras de São José
A cidade tem 43 feiras livres em funcionamento | Foto: Paullo Amarall
As feiras livres fazem parte da rotina da cidade e seguem como um dos principais canais de abastecimento de alimentos frescos para a população.
Atualmente, são 43 feiras livres em funcionamento, sendo a maioria diurnas e algumas noturnas, distribuídas por diferentes bairros do município.
Além de movimentar a economia local, o sistema reúne centenas de feirantes cadastrados e oferece uma grande variedade de produtos, reforçando o vínculo entre produtores e consumidores. É neste cenário que Alcides construiu toda a sua trajetória.
Da terra à feira
Alcides no sítio onde cultiva frutas e hortaliças | Foto: Acervo Pessoal
A relação de Alcides com a agricultura começou cedo, ao lado da família. A feira veio depois e acabou se tornando parte inseparável da vida. “Tenho muito orgulho de ser feirante. É uma vida inteira dedicada a essa profissão, uma tradição que começou com meu irmão, já falecido”, conta.
Mais do que vender, ele acompanhou de perto a transformação da cidade e do próprio modo de consumo das famílias. “Naquela época não tinha supermercado como hoje. A gente plantava muita coisa. Chegava a fazer mais de 200 cabeças de repolho e vendia tudo na feira”, lembra.
Ao longo de quase seis décadas, Alcides viu São José dos Campos deixar de ser uma cidade marcada por chácaras e pequenas propriedades rurais para se tornar um grande centro urbano. “Aqui era tudo chácara. Muita gente plantava e praticamente não precisava comprar fruta e verdura”, recorda.
Concorrência
O filho Lucas é seu braço direito e o acompanha | Foto: Acervo Pessoal
Enquanto a cidade crescia, os hábitos também mudavam. As feiras continuaram, mas passaram a dividir espaço com supermercados, restaurantes e novas formas de consumo. Alcides, no entanto, seguiu no mesmo caminho. “A cidade mudou, o jeito de viver mudou também”, diz.
O trabalho na feira também virou parte da família. O filho Lucas é seu braço direito e o acompanha no dia a dia das bancas. Alcides também é avô de dois netos, que crescem vendo de perto a rotina construída ao longo de décadas.
Entre uma venda e outra, não é raro ouvir brincadeiras dos clientes antigos, que reconhecem sua trajetória. “Você tá cada vez mais famoso”, comentou uma consumidora, em tom descontraído, durante uma das feiras.
Seja no sítio ou na feira, Alcides carrega um sentimento que atravessa toda a sua história: o orgulho de ter nascido em São José dos Campos e construído sua vida ali. “Nasci em São José e amo esta cidade. Não troco São José por nada”, afirma.
O texto faz parte da série Talentos de São José, produzida em comemoração aos 259 anos de São José dos Campos.
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Com informações da Prefeitura de São José dos Campos
