Com informações da ONU
Combinando coordenação estratégica e inovação logística, a equipe do WFP utiliza veículos anfíbios de alta mobilidade, como o Sherp, pilotado por Sérgio Jafar, para garantir suprimentos vitais nas regiões mais isoladas do país.
Atravessando áreas inundadas
“A operação não era fácil, porque aquela já não era muito de trabalhar só numa travessia do Rio, aquilo já parecia oceano. Oceano de Água Doce. Recebemos os Sherp e a primeira vez eu não sabia que nada cheia de 2019 chegou aquele veículo que eu achei uma coisa muito estranha. Ele se assemelha com uma máquina de movimento de Terra, que em tempos de oficina eu já tinha usado, fui me familiarizando com a máquina.”
Às vésperas de sua aposentadoria, Sérgio Jafar repassa o bastão aos colegas com uma mensagem clara: o trabalho humanitário nasce, acima de tudo, do desejo profundo de resgatar vidas.
Apelo para mais meios de assistência
“O trabalhador humanitário tem que ser aquele que vem com sentimento, vontade de ajudar, tendo em consideração que os outros estão só estão à espera. Hoje em dia temos mais cheias, precisamos mais de meios fluviais. Estou na organização desde 1994. Entrei como mecânico, depois virei motorista. Eu já estou quase a ir para a reforma, procuro levar da minha experiência para ensinar os meus colegas.”
Onde a terra para o Sherp continua. O veículo anfíbio Sherp rompeu o isolamento causado pelas cheias, permitindo que o WFP e seus parceiros levassem alimentos e suprimentos vitais às comunidades completamente ilhadas por terra ou rio.
Moçambique. Resposta às inundações na província de Gaza
Humanizando a emergência
Para Isadora Zoni, da equipe de Comunicação do Acnur em Moçambique, a resposta humanitária vai além das estatísticas. Na linha de frente, a frieza dos números de deslocados e casas destruídas dá lugar ao impacto real: o rosto de cada pessoa e a força de suas histórias.
Em meio à crise, a logística desafia o impossível para entregar ajuda, enquanto o olhar humano transforma estatísticas em esperança.
“Quando você chega no terreno, percebe que por trás de cada um desses números existe uma pessoa, uma família, uma história. E muitas vezes são pessoas que já tiveram que recomeçar mais de uma vez. E é isso que me move. Saber que o nosso trabalho pode contribuir, ainda que seja de uma forma pequena, para que alguém que perdeu a sua casa, os seus meios de vida e subsistência, e teve que fugir por conta da violência, não está sozinho. E que tem alguém que vai apoiar para que ele possa reconstruir sua vida. Para mim, não deixar ninguém para trás significa garantir que conseguimos chegar também àquelas pessoas que estão mais difíceis de alcançar.”
O Acnur protege quem tudo perdeu: refugiados, requerentes de asilo e deslocados internos em seu próprio país. Em cenários de conflito, como Cabo Delgado assombrado pela violência armada, os impactos do deslocamento forçado são ainda mais profundos e exigem uma resposta imediata.
Fugir de casa não significa perder a dignidade. Seja cruzando fronteiras ou resistindo ao terror em seu próprio país, o Acnur garante proteção aos mais vulneráveis.
“Aqui em Cabo Delgado, por exemplo, há comunidades deslocadas pelo conflito que vivem em áreas remotas, onde a situação de segurança torna ainda mais difícil o acesso humanitário. Pessoas com deficiência, pessoas idosas, mulheres e crianças, que possam estar expostas a riscos adicionais de proteção. Por isso, para mim, não deixar ninguém para trás é também perguntar-se constantemente quem nós não estamos conseguindo alcançar. Quem está a ficar invisível nessa resposta? E depois encontrar formas para chegar a essas pessoas. Garantir que a distância, a insegurança, essa maior vulnerabilidade, não permita que elas sejam esquecidas.”
Memórias na assistência humanitária
Anos de missões pelo Acnur deixaram marcas profundas em Zoni, mas poucas tão marcantes quanto Cabo Delgado, região marcada pela violência e pelo deslocamento forçado. Entre tantas vidas cruzadas no caos de Mieze, a história da família de Mazamo permanece inesquecível.
“E quando comecei a conversar com o Mazamo, percebi que aquela não era a primeira vez que ele tinha começado de novo. Mazamo era pescador e Macomia, e depois de ser forçado a fugir, eles chegaram a Metuge, tiveram que reconstruir a vida praticamente do zero. Ele aprendeu a trabalhar como pedreiro, economizou o que conseguiu e pouco a pouco construiu uma casa de três quartos para a família. Os filhos já estavam na escola, tinham novamente um teto e começavam a recuperar alguma estabilidade.”
A trajetória de Mazamo, que perdeu tudo, se reconstruiu e teve a casa destruída mais uma vez, sintetiza a força de milhares de moçambicanos.
Só em julho, a Linha Verde registou mais de 13 mil chamadas e 789 casos urgentes de assistência humanitária em 67 distritos, com o Norte do país a concentrar 54% dos pedidos de socorro. Por trás de cada estatística, há uma história de superação que exige resposta.
* Ouri Pota é correspondente da ONU News em Maputo


