No mesmo ano, foram registradas 15.940 notificações de potenciais doadores, das quais 4.335 resultaram em doadores efetivos. A taxa chegou a 20,3 doadores por milhão de população, acima dos 19,2 registrados em 2024. Os números mostram avanço na identificação e efetivação de doadores, mas também evidenciam a distância entre o potencial de doação e a disponibilidade efetiva de órgãos para transplantes.
Para o presidente da Anadem (Sociedade Brasileira de Direito Médico e Bioética), Raul Canal, parte do desafio está no momento em que a família é chamada a tomar uma decisão. “Não é possível esperar que uma família tome uma decisão sobre doação de órgãos se ela ainda não conseguiu compreender a morte do ente querido. A conversa sobre doação começa, na prática, muito antes do pedido de autorização”, afirma.
A abordagem ocorre após a confirmação da morte encefálica, em um momento de forte impacto emocional e diante de informações técnicas difíceis de assimilar. De acordo com Canal, que também é advogado especializado em direito médico, uma comunicação inadequada pode aumentar a desconfiança e transformar uma decisão já delicada em uma experiência ainda mais difícil para os familiares.
“O profissional precisa explicar uma situação que, para muitas famílias, parece contraditória: o corpo continua apresentando sinais e recebendo cuidados, mas a pessoa morreu. Se essa informação não for compreendida, a conversa sobre doação pode começar com uma dúvida básica sobre a própria morte”, explica.
A necessidade de qualificação das equipes envolvidas no processo tem levado instituições a ampliar a formação de profissionais. Entre setembro de 2025 e agosto de 2026, a Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), em parceria com o Ministério da Saúde, capacitou 2.534 profissionais de saúde para atuar em diferentes etapas da doação e dos transplantes, superando em 25% a meta inicial de 2 mil participantes.
Entre os capacitados estão 933 médicos, dos quais 473 receberam treinamento específico para a determinação da morte encefálica. Os demais profissionais foram capacitados em Gerenciamento no Processo de Doação e Transplante (GPDT), Comunicação em Situações Críticas (CSC), além de conteúdos relacionados à identificação e à manutenção clínica de potenciais doadores.
Para a advogada especialista em direito médico, Fabiana Attié, a preparação das equipes precisa incluir a capacidade de conduzir a conversa com os familiares sem transformar a abordagem em uma tentativa de convencimento. “A família não pode sentir que está sendo pressionada a autorizar a doação. O papel da equipe é garantir que ela tenha condições de entender o que aconteceu, quais são os procedimentos e que a decisão seja tomada de forma consciente. Quando existe confiança nessa relação, a decisão pode ser tomada com mais segurança, seja pela doação ou pela recusa”, acrescenta.
Em 2025, o Brasil realizou 6.697 transplantes renais, 2.573 hepáticos, 427 cardíacos, 142 de pâncreas e 96 pulmonares. O país também registrou 17.790 transplantes de córnea. No mesmo período, a taxa de notificações de potenciais doadores chegou a 74,7 por milhão de população.
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